sábado, 16 de abril de 2016

PORTO BEFORE PORTO: a cidade da representação versus a cidade da exclusão




O Porto é hoje uma cidade assediada por um capitalismo financeiro internacional que descobriu no território uma fonte de enriquecimento rápido, e que deseja converter a Capital do Norte, a cidade do trabalho, do comércio local e das pessoas, num antro de consumo com uma sociedade humana lá dentro.

A Cidade é assim objecto de requalificação ao serviço dos interesses das grandes corporações internacionais, associando capitalismo liberal a voluntarismo político local e regional.

A Cidade do Porto é assim uma espécie de caricatura e paródia de vida urbana, transformando-se numa máquina de exclusão, expulsando os seus moradores para os bairros municipais periféricos e desumanos, bem como destruindo o sector secundário do pequeno comércio e pequenas oficinas de rua.


Assiste-se, ao desmoronar de toda uma economia de rua com consequências profundas na qualidade e vitalidade económica, cultural e social endógena da cidade do Porto. O desmantelamento de ateliers e pequenas oficinas, carpintaria e mercenária, de arte e de animação, de produção artística e cultural. Porque, não conseguem suportar as novas rendas, próprias de um mercado fortemente especulativo e irracional.

No fim de semana passado, assisti de forma incrédula ao desmantelamento de uma oficina na rua Alexandre Herculano, com a venda de instrumentos de carpintaria, de mesas de montagem, de pinturas, telas, candeeiros, microondas, frigorífico, salamandra, sofás, cadeiras de estirador, andaimes, focos de luz, toda uma vida dedicada à produção artística que se evaporou em segundos. Uma comunidade de produtores, de gente bonita e inteligente, que servia a cidade, contribuindo para enaltecer a sua singularidade e diferença em relação à tantas outras cidades

O Porto: uma cidade de artistas, de arquitectos, de cineastas, de mestres de obras.

Os preços por metro quadrado na cidade compacta sobem para valores incomportáveis por aqueles que trabalham, vivem e têm que pagar rendas pelas oficinas e comércio que dão à cidade do Porto esse sentido cosmopolita de urb.


Esta situação agrava-se ainda mais, porque perante a exclusão de uns, também impossibilita que os jovens possam voltar à cidade compacta e qualificada.


As políticas camarárias não podem ignorar esta situação, nem podem fazer de conta de que nada disto esta a acontecer por políticas municipais que promovem a concentração da população em bairros subúrbio, como Lagarteiro, Contumil, Cerco, etc. Urgente um debate público sobre a actual realidade, porque ainda é possível mudar de programa e de políticas.


E se for caso disso, de políticos!

sábado, 19 de março de 2016

 Exposição do Programa de Reabilitação do Riobom Fontainhas no âmbito de uma proposta desenvolvida e coordenada pelo Laboratório de Habitação Básica e que se encontra instalada na entrada do Plano B, Bar Galeria da Cidade do Porto.

O programa tem como coordenadores na área do espaço, mediação e conceptualização do antropólogo Fernando Matos Rodrigues; na área de Projecto e Arquitectura o arquitecto André Fontes e Ant. Jorge Fontes da IMAGO e LAHB; colaboram como arquietectos os professores de projecto e arquitectura João Carreira e José Gigante. Um projecto que tem sido desenvolvido em parceria com o Pelouro de Urbanismo da Câmara Municipal do Porto, na pessoa do Vereador Prof. Arqto Manuel Correia Fernandes, com os proprietários / herdeiros e os moradores do bairro do Riobom e das Fontainhas.









segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Tertúlias das Fontainhas/Riobom: A Cidade e o Urbano

Image result for FONTAINHAS


TERTÚLIAS DAS FONTAINHAS/RIOBOM
A Cidade e o Urbano
Março de 2016 
(dias 5, 12, 19 e 26 pelas 17.30)

Um conjunto de encontros à mesa no Bar Galeria Plano B, sobre que programas, que proposta e projectos para a renovação do Riobom e Fontainhas. Num debate informal mas não menos complexo e rigoroso, convidando especialista de várias áreas cientificas e técnicas, residentes (os moradores dos bairros do Riobom, Moinhos, Nicolau, Guindais, etc,), responsáveis políticos e outro tipo de forças vivas da cidade.

Nestes encontros à mesa estarão em discussão as questões do direito à habitação, do direito à cidade, que modelos para a renovação do Riobom e Fontainhas. Trazendo à colação a crise da habitação e os paradigmas do mercado que estão na sua origem e que agravaram ainda mais o problema da habitação na cidade. 

A habitação e a cidade nas últimas décadas converteram-se num direito universal, consagrado nas Cartas da UNESCO. Em Portugal a Constituição da República Portuguesa consagra no seu Artigo 65, ponto 1.«Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade da família».

Toda a gente sabe que os problemas da habitação têm um carácter estrutural, contudo essa natureza não pode ser condição para o adiar de soluções. 

Consideramos, que a única solução para o problema deve ser encontrada na participação e na inclusão. É neste sentido e de forma despretensiosa e informal que o Laboratório de Habitação Básica Participada pretende colocar a questão envolvendo os moradores, os jovens e os idosos na procura de soluções inclusivas e sustentáveis.

PROGRAMA

1.ª Tertúlia dia 5 de Março pelas 17.30
A Cidade e o Urbano: lugar, projecto e habitar
Alexandre Alves Costa, Arquitecto, FAUP
Adalberto Dias, Arquitecto, FAUP
José Pedro Montalvão, Geólogo UP
João Paulo Rapagão, Arquitecto, Univ. Lusíada
Cláudia Costa, Presidente da Ordem dos Arquitectos SRN

2.ª Tertúlia dia 12 de Março pelas 17.30
A Cidade e o Urbano: o papel da participação popular nas políticas de habitação
Manuel Carlos Silva, Sociólogo, CICS.NOVA/LAHB
Fernando Matos Rodrigues, Antropólogo, CICS.NOVA/LAHB
Susana Mourão, Socióloga, Câmara Municipal de Évora ( a confirmar!)
Mariano Carvalho, Economista, Comissão de Moradores do Bairro do Riobom
António Fontelas, Associação de Moradores da Ilha da Bela Vista
Pedro Carvalho, Vereador Câmara Municipal do Porto (a confirmar!)

3.ª Tertúlia dia 19 de Março pelas 17.30
A Cidade e o Urbano: a cidade como ponto de encontro do Global e do Local
Teresa Mora, Socióloga, ICS/CICS.NOVA-U.M
Jorge Ricardo Pinto, Geógrafo, FLUP
José Soeiro, Sociólogo, Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia da República ( a confirmar!)
Álvaro Campelo, Antropólogo, UFP
António José Fonseca, Presidente da União de Freguesias de Cedofeita, Sto Ildefonso, Sé, Miragaia, S. Nicolau  e Vitória.


4.ª Tertúlia dia 26 de Março pelas 17.30
A Cidade e o Urbano: programa e projecto de renovação do Riobom/Fontainhas
António Jorge Fontes/André Fontes, Arquitectos, IMAGO/LAHB
João Carreira, Arquitecto, MIA-ESAP
José Gigante, Arquitecto, FAUP
Nuno Grande, Arquitecto, FAUP
Manuel Correia Fernandes, Arquitecto/FAUP, Vereador de Urbanismo Câmara Municipal do Porto

Local: Adega/Mercearia do Senhor Luís, ao Passeio das Fontainhas

Organização
Laboratório de Habitação Básica / CICS.NOVA/Comissão de Moradores do Riobom/IMAGO.

Colaboração da Rádio Manobras na transmissão das conversas sobre os temas apresentados.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

III.º Seminário do Riobom A Cidade E O Direito À Habitação - Programa de Reabilitação do Riobom/Fontainhas

Dia 27 de Fevereiro de 2016
III.º Seminário do Riobom 
A Cidade E O Direito À Habitação - Programa de Reabilitação do Riobom/Fontainhas

Local Auditório da ESAH

Objectivos
Este seminário, pretende ser um espaço de troca de experiências e de conhecimento entre a Comunidade Africana que habita a escarpa das Fontainhas no bairro do Riobom, (onde cultiva as suas hortas e pomares) com a equipa que coordena o programa e executa o projecto de reabilitação desta zona. Um espaço de troca de ideias, de experiencias com os moradores, os cientistas sociais, os arquitectos e os políticos da nossa cidade.
Este seminário terá dois momentos distintos mas complementares. Durante toda a manhã a equipa que elaborou o programa e projecto de reabilitação do Riobom apresentará as conclusões desse trabalho que tem sido discutido no âmbito da colaboração do Pelouro de Urbanismo da Câmara Municipal do Porto, expressa na reunião de 6 de Janeiro, com a monitorização que se realizou no Pelouro do Urbanismo com a presença do Exmo Vereador Manuel Correia Fernandes e respectivas equipas.
Depois na segunda parte, que será durante a tarde a equipa de Lisboa apresentará o seu trabalho com a implementação de programas de habitação em contexto de barracas nas periferias da Área Metropolitana de Lisboa.
Em que cada um dos intervenientes possa dar a conhecer as suas propostas e os seus trabalhos de forma aberta e transdisciplinar. Possibilitando um debate que promova a troca de conhecimento, o levantar de duvidas e de problemas associados à habitação para todos na cidade.
Este seminário também se vai desdobrar em outros dois seminários que se vão posteriormente realizar na cidade de Braga e de Lisboa sobre a mesma temática e com os mesmos objectivos.
9:00 - Abertura do Seminário
Fernando Matos Rodrigues, Director do LAHB
Manuel Carlos Silva, CICS.NOVA/LAHB
Rita Silva, Habita (Lisboa)
Primeira sessão do Seminário
9:30 - Programa de reabilitação para o Riobom e Escarpa das Fontainhas
Fernando Matos Rodrigues / António Jorge Fontes/ André Fontes/ João Carreira/José Gigante

!3.00 - Almoço na Tasca do Senhor Luís,
Abertura da exposição sobre o Programa de reabilitação do Riobom
.
Visita ao Bairro do Riobom / Escarpa das Fontainhas.

Segunda sessão do Seminário
tarde das 15.20 às 18.30
A Construção do Direito à Habitação na Cidade. Exemplos de trabalhos na Área Metropolitana de Lisboa.
Isabel Raposo, GESTUAL, F.A.U.L.
João Martins, GESTUAL
Gonçalo Folgado, GESTUAL
Debate final das 18.30 às 19.30
Encerramento
Manuel Correia Fernandes, Vereador do Pelouro do Urbanismo da Câmara Municipal do Porto.
Coordenação cientifica
Fernando Matos Rodrigues, Lahb / CICS.NOVA-UMinho
António Jorge Cerejeira Fontes, IMAGO / lahb / UM
Manuel Carlos Silva, CISC.NOVA UMinho, Prof. Catedrático da UM / Lahb
Isabel Raposo, GESTUAL, Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa.
Organização
Laboratório de Habitação Básica Participada / Observatório para o Direito à Cidade e Habitação / CICS.NOVA-UM / IMAGO/GESTUAL-UL
Com a colaboração da Comissão de Moradores do Bairro Riobom, Associação de Moradores da Ilha da Bela Vista, Escola Secundária Alexandre Herculano, Junta de Freguesia do Bonfim e Câmara Municipal do Porto.

Inscrições: máximo 15, valor de 20 euros
Email: mat.rodrigues@sapo.pt

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Laboratório de Habitação Básica Participada, um retorno necessário à sua matriz de origem!

Ilha da Bela Vista

As obras de reabilitação na Ilha da Bela Vista, obedecem a uma metodologia de arquitectura participada em contexto de não deslocação/alojamento dos residentes para outro local.

O processo foi estruturado em função das seguintes fases:

Primeira fase - elaboração do projecto de arquitectura participada, com a coordenação de Fernando Matos Rodrigues/António Jorge Fontes/ moradores/ representantes políticos. Esta fase terminou em finais de Junho de 2015.

Segunda fase - Com o licenciamento do projecto e o concurso para a construção da ilha. Envolvendo a Domus Social e a Imago, com a coordenação de José Ferreira pela Domus Social e de António Jorge Fontes e Fernando Matos Rodrigues e (Imago/Lahb).

Terceira fase - Inicio de Obra em Dezembro de 2015. Com a implementação da primeira fase do projecto da Imago.

A coordenação de Apoio Social ficou na tutela do Instituto Superior de Serviço Social do Porto, com coordenação de Berta Granja e José Alberto Reis, com a aplicação de um Inquérito social aos moradores.

Este processo terminou com os estágios em Junho de 2015. A equipa do ISSSP ficou assim com a coordenação de duas estagiárias em serviço social que durante um ano parece que desenvolveram um Inquérito Social sobre os moradores, mas do qual nada se sabe!
A partir de Junho de 2015, com o fim dos estágios (arquitectura: Fábio Azevedo/ Catarina Pires; Serviço Social: Ana Vieira, Inês Lima) a equipa coordenadora de Arquitectura deixou de ter contacto com a área de Serviço Social.

O projecto de reabilitação é assim coordenado sub a tutela da Imago, que sempre foi independente do ISSSP. Os únicos que tinham contacto com a coordenação do Projecto eram Ant. Jorge Fontes/André Fontes e Fernando Matos Rodrigues, mais concretamente nas áreas da conceptualização, da metodologia e da participação dos moradores na elaboração do projecto de reabilitação da Ilha da Bela Vista. E Tinha no arquitecto estagiário Fábio Azevedo a coordenação dos estagiários com a equipa de projecto e de programação. 
Por isso, se compreende que todo o projecto de arquitectura participada tenha sido desenvolvido no âmbito dos estágios à Ordem dos Arquitectos dos jovens mestres em arquitectura: Fabio Azevedo e Catarina Pires, sob orientação do Arqto António Jorge Fontes e André Fontes.
Esta situação nada tinha de relação institucional com o ISSSP, caso fosse assim, então o ISSSP teria que assumir os custos do Projecto de Arquitectura da Ilha da Bela Vista. Aliás, no dia de apresentação do Projecto de Reabilitação da Ilha da Bela Vista, pelo Senhor Presidente de Câmara Dr Rui Moreira, é que se assinou o tal protocolo entre o ISSSP e a CMP, para pagar os estágios, e outras iniciativas, que aliás nunca vieram a ser implementadas pelo ISSSP.

As maquetes, os posters que serviram de suporte à apresentação dos projectos, foram desenvolvidos na Imago e no âmbito do Estágio à Ordem que qualquer arquitecto tem de fazer para poder estar habilitado a desempenhar a profissão de arquitecto. 

O ISSSP ainda não tinha assinado o Protocolo e nada tinha que ver com o projecto como era natural.

E o ISSSP nunca teve relação institucional com a IMAGo, enquanto autora do projecto e responsável pelo seu acompanhamento, quer em termos técnicos quer em termos jurídicos(Autoria).

Com o fim dos estágios de arquitectura promovidos no âmbito do protocolo entre a CMP e o ISSSP terminava a relação que tínhamos mantido com o ISSSP.

Aliás, a professora Berta Granja era uma pessoa muito ausente neste processo, muito preocupada com os acessórios e a realização de umas actas, mas de trabalho social na Ilha da Bela Vista, não conheço nenhum estudo, nenhum relatório, nenhum trabalho de apoio social. E garanto-vos que era bem necessário. Aliás, nem apresentou com em finais de Junho o Programa de Realojamento dos novos moradores. Nos meses de Junho a Setembro a equipa passou horas e horas, noite seguidas, com directas, e nunca por lá vimos ninguém do ISSSP. A não ser a companhia amiga do Prof. Arquitecto Nicolau ex-director do Mestrado Integrado em Arquitectura. A quem deixo aqui, um abraço de agradecimento.

Na realidade, o ISSSP,  foi assim uma espécie de barriga de aluguer, para lançar os estágios, que diga-se de verdade, dos cinco estagiários só dois deles foram determinantes e actuantes no projecto da Bela Vista: Fábio Azevedo e Catarina Pires. Os restantes nada de relevante a não ser colaboração na parte burocrática do processo.
O Protocolo entre a CMP e o ISSSP tinha como objectivo garantir os estágios no âmbito do programa de reabilitação da Ilha da Bela Vista. A partir daqui, todo o processo de reabilitação ficava confinado à Imago, que é a autora do projecto de reabilitação da Ilha da Bela Vista e à Domus Social entidade promotora da obra, em nome da Câmara Municipal do Porto.
O Laboratório de Habitação Básica volta à sua matriz inicial tal como tinha sido desenhado no âmbito na minha cadeira de Antropologia do Espaço no Mestrado Integrado em Arquitectura na ESAP (durante os anos de 1994-2014), com a colaboração dos meus colegas e alunos de arquitectura. Significa que o Lahb.Social já não tem qualquer filiação com o programa inicial que lançamos em parceria com a IMAGO.

Agora, sem o Social e sem a colaboração do ISSSP, que nunca foi um parceiro muito empenhado neste processo voltamos à matriz inicial - LAHB.

sábado, 12 de dezembro de 2015

PELO DIREITO À HABITAÇÃO - Manifesto

UMA HABITAÇÃO DIGNA PARA TODOS
A HABITAÇÃO É UM DIREITO, NÃO É UM PRIVILÉGIO!


Assembleia do Porto / Lisboa
Pelo Direito à Habitação
19 / 20 de Setembro de 2015



Numa Plataforma Nacional promovida pela Habita, Laboratório de Habitação Básica
 e outras organizações cívicas, reúnem-se na Cidade de Lisboa e do Porto nos dias 19 e 20 de Setembro, inquilinos, comissões e associações de moradores, movimentos cívicos, individualidades, organizações pelo direito à habitação em prol de UMA HABITAÇÃO DIGNA PARA TODOS.

Nesta assembleia pelo Direito à Habitação o objectivo central é discutir de forma aberta, participativa e transversal o acesso a uma habitação digna, num contexto em que, infelizmente temos cada vez mais gente sem casa, e cada vez mais casas sem gente nas nossas cidades.

Perante este grave problema nacional de habitação, faz todo o sentido promover uma discussão pública em torno do direito à habitação a partir do Capitulo III – Direitos e deveres sociais consagrados na Constituição da Republica Portuguesa.

Especificamente o artigo 65, ponto um: «Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar».

O Manifesto coloca estes sete pontos em discussão e aprovação pública, de forma a contribuir para a criação de uma Agenda Nacional Pelo Direito a uma habitação digna para todos sem excepção.


 Pontos para discussão e aprovação no Plenário do Porto

(1)    Revogação do Regime de Arrendamento Urbano (Lei n.º 31/2012, de 14 de agosto, retificada pela Declaração de Retificação n.º 59-A/2012, de 12 de outubro); e da Lei n.º81/2014 – que estabelece o novo regime do arrendamento apoiado para a habitação.

(2)    Promover a reabilitação da habitação pública dos centros urbanos em detrimento das actuais políticas de “fachadismo” nos blocos de habitação social promotoras da exclusão social;

(3)    Criação de instrumentos legais para agilizar a libertação das pessoas perante as hipotecas das casas;

(4)    Garantir uma política de socialização dos solos em articulação com as taxas sobre imóveis devolutos, em ruína ou em abandono nos centros das cidades de forma a evitar a especulação e a gula imobiliária;

(5)    Combater os fenómenos de expulsão da população dos centros urbanos através do controlo dos arrendamentos turísticos;

Temos assistido a uma rápida substituição dos arrendamentos residenciais para arrendamentos turísticos, conduzindo à forte discrepância entre valores praticáveis para arrendamento turístico e arrendamento corrente. Perante a substituição do arrendamento para habitação pelo destinado a turismo, propõe-se o estabelecimento de cotas de arrendamento para habitação permanente, controlando desta forma, os fenómenos de turistificação e inflação do mercado de arrendamento;

(6)    Promover o arrendamento público, não só garantindo menor especulação do mercado do arrendamento e, consequentemente, maior acesso a rendas controladas, como também a abolição do estigma associado à habitação dita social;

(7)    Garantir uma taxa de esforço na habitação equitativa e adequada às condições socioeconómicas hoje verificadas;


(8)    Promover o direito à habitação com a implementação de políticas de trabalho socialmente digno e estável. Com uma especial atenção para os problemas dos idosos e dos jovens no direito à habitação. 

Agostinho Ricca – cidade, habitação e (com)tradição!



Por Fernando Matos Rodrigues

Falar sobre cidade e habitação a partir da complexa e densa obra construída e projectada do Arqto Agostinho Ricca (1915-2010) é sem dúvida um desafio e uma provocação epistemológica sobre a função da arquitectura e do arquitecto na cidade. É também elaborar uma reflexão crítica e interpretativa sobre as últimas décadas da história da arquitectura na Europa e em Portugal. Enquadrando esse mesmo percurso entre a afirmação do Movimento da Arquitectura Moderna num contexto nacional dominado por uma ideologia conservadora que procurava na memória histórica a afirmação de uma arquitectura revivalista.
Aliás, sobre esta realidade Manuel Mendes, considera que a «partir de meados da década de 40, a casa unifamiliar, isolada ou de continuidade, singular ou agrupada, folclorizada num culto anacrónico e patológico do estilo português e portuense, serviu quase exclusivamente à consolidação-consagração de bolsas-bairros da elite portuense, nomeadamente na zona das Antas no sector oriental da cidade, e na zona de Gomes da Costa no sector ocidental»[1].
Com o advento do Movimento Moderno a arquitectura integra-se num processo de valorização das transformações e das utopias sociais, dá outro sentido estético e ideológico aos pretextos funcionalistas, relaciona-se também com os movimentos plásticos, de forma a construir uma identidade e uma autenticidade arquitectónica, tendo como base a racionalidade construtiva e a produção estandardizada.
É neste contexto internacional de forte criatividade e inovação conceptual e construtiva, que a obra de Agostinho Ricca se integra e evolui de forma a acompanhar as contradições e as limitações espitemológicas de um programa de arquitectura que se pretendia simbólico e fracturante.
 Agostinho Ricca vai desta forma construir um pensamento arquitectónico que tem a sua genealogia no Movimento Moderno. É um arquitecto claramente empenhado no e do movimento moderno. Neste sentido, vai acompanhando as contradições e as redundâncias, as crises e as mudanças desse mesmo movimento, dando força a uma necessidade de superar esses obstáculos com a afirmação e a valorização das suas preocupações funcionais e construtivas inseridas numa sensibilidade arquitectónica que se traduz na valorização do desenho, da expressividade, da luz e da poética dos detalhes construtivos dos novos materiais que utiliza nas suas obras.
Daí se pode afirmar, que o desenho na obra arquitectónica de Agostinho Ricca é uma espécie de ortopedia dos sentidos, como possibilidade construtiva de epifanias da luminosidade espacial. A arquitectura assume com Ricca o seu lado mais poético e imagético, dando sentido antropomórfico aos espaços interiores que constrói em relação profunda com a natureza dos materiais: o betão, a madeira, o vidro, o tijolo maciço e o aço. 
 Agostinho Ricca, faz-se arquitecto com uma arquitectura na e para a cidade. Num país que vive em profundo anacronismo estético e ideológico, ancorado ainda numa estrutura social e política pré-moderna, que não aceita e repudia as gerações novas, que persegue e exclui as utopias sociais. Um país que recusa o novo da modernidade e que se refugia na identidade e na memória manipulada ao serviço de uma pátria que já não era de Junqueiro nem de Álvaro de Campos.
Lá “fora” o tempo era de mudança e de complexidade. De inovação e de criação transversal a todas as artes. José António Bandeirinha, considera que no moderno «mais do que uma colecta de modelos em mimese formal, lexical ou normativa, ganhava corpo, um sistema de aproximação entre método e obra que encadeava o devir social, as práticas projectuais, as percepções do espaço, a identidade e a autenticidade das matérias, as actualizações racionais da capacidade construtiva, a produção estandardizada, as tentativas de normalização dimensional, e, por último, a expressão plástica potenciadora pela descoberta da adaptabilidade dos novos materiais»[2]. Com o advento da modernidade criam-se condições para a recusa das convenções do passado, em benefício da utopia social e urbana.
Neste vértice de crise da modernidade, Agostinho Ricca vai se confrontar a si e à sua obra, com um pensamento moderno já dominado por um conjunto diversificado de problemas e de contradições. Contradições, essas, que estão na origem da sua crise ou da sua transformação como Homem e como arquitecto. É o aparecer de um conjunto de redundâncias técnicas que opunham racionalismo versus naturalismo, expressionismo versus estilo internacional, funcionalismo versus organicismo. Manuel Mendes, sobre o projecto em Agostinho Ricca, para uma casa em andares de duas frentes na Rua de Fernão de Magalhães (1945)[3], se dá conta do duro constrangimento portuense, é também o grito do homem moderno que «corre, em vão, atrás de um presente a cada instante cheio de uma fabulosa e excessiva riqueza, em face da qual morre de sede» (E. Lourenço)[4].
Contudo, a arquitectura assume um corte com o dogmatismo inicial do Movimento Moderno assente na Carta de Atenas, com o entendimento de que a arquitectura é também o resultado de um sistema complexo, de relações que torna possível a integração da técnica e das artes. O princípio de que a forma era «razão mais que suficiente» para satisfazer as exigências da qualidade espacial, deixa de responder às suas preocupações da qualidade espacial e poética na sua arquitectura.
Em Portugal, a década de 50 vai ser um período de transição e de forte reflexão critica para com o jovem Arquitecto que inicia a sua aventura como professor na Escola de Belas Artes do Porto. A crise do Movimento Moderno na Arquitectura,  dá origem a um processo de procura de referencias locais, de contextualizações dando origem a explorações organicistas e regionalistas criticas que vão ter no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (1955 e editado em 1961) o seu marco referencial para abrir o caminho a uma ruptura e a uma transformação de todo o pensamento do programa arquitectónico moderno nacional com uma vertente mais humanista e cultural. Esta crise do Movimento Moderno assinala em Portugal o retomar do sentido integrador que parece constituir uma constante da arquitectura portuguesa[5]. Na cultura arquitectónica portuguesa está bem presente a confrontação entre dois lados bem distintos. De um lado a questão da tradição construtiva e do outro lado, a questão da modernidade e do regionalismo. É neste ambiente de resistência face a um conservadorismo oficial, e também a um esquematismo do Estilo Internacional que nasce o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa.
Neste contexto, o arquitecto e a sua obra dialogam com a cidade, com a rua, com o lote em branco que se deseja ser cidade. Procura fazer do desenho uma aproximação ao lugar, ao sítio, dialogando com os contextos e com as identidades construídas da envolvente, sem constrangimento e sem oposições dogmáticas e híper racionalistas. O projecto é um instrumento ao serviço da harmonia, da beleza e da integração das massas e dos volumes em contextos de cidade. O projecto é assim, uma obra singular que se afirma na cidade com essa vontade forte de também querer fazer cidade. Jacinto Rodrigues integra a arquitectura de Agostinho Ricca, na conjugação dos princípios da racionalidade do moderno, na multiformalidade do organicismo e na poética construtivista. Projectando novas formas, novas espacialidades, novas linguagens que se traduzem numa gramática expressiva e harmónica de grande densidade poética, capaz de criar outras escalas e outros volumes, outros detalhes e outros cenários. A sua arquitectura permite ao Homem experienciar outras experiencias espaciais com a criação de cenários de grande intensidade espiritual e estética como é o caso do Parque Residencial da Boavista (anos 60 e 70). Permite a descoberta de outros territórios, de outros contextos, outras interioridades, de outras circulações e de outras interacções. Estamos perante uma nova concepção do espaço, da cidade e da habitação.  Um polimorfismo espacial que se conjuga com uma hierarquia espacial, de espaços de dentro e espaços do fora, uma taxonomia construída a partir de horizontalidades semânticas e de verticalidades graficamente evoluídas para um sentido escultórico do objecto arquitectónico, mas integrador do habitar no contexto urbano. O exemplo, que melhor traduz este sentido de topos, é o caso do Edificio de habitação Montepio Geral, construído em 1960-61, na Rua Júlio Dinis no Porto. Com esta intervenção arquitectónica procurava-se a afirmação de que a arquitectura deve dialogar e se possível deve inscrever-se num lugar, num sítio, numa história e numa cultura. Estamos na presença de uma construção que faz a articulação entre o espacial e o social, o consolidado e o emergente, o contínuo e o descontínuo, o fragmento e o todo absoluto.
A construção remete para os padrões do movimento moderno, no etanto, a concepção global , organizada em função do lote, do sitio, da rua, representa uma evidente libertação dos princípios ortodoxos dos CIAM, propondo uma noção de espaço mais organicista, onde o detalhe, o ritmo, a harmonia como que procuram a construção poética dos sentidos. Estamos a falar dos casos do Edificio de Moradias, construído em 1949 na Rua João de Deus. Um bloco de moradias unifamiliares, onde o sistema é o esquerdo-direito, com escada principal. Com este sistema evitam-se custos com a construção de galerias, desperdício de espaço, evita-se a uniformidade das tipologias, garante-se uma relação mais directa com a rua, com a cidade e o mundo exterior. Valorizando a individualidade da pessoa, integrando-a em espaços com identidade urbana significativa e desta forma garantia o direito à cidade. Num espaço heterogéneo que se materializa em forma de concha onde o ser é “coisa” heterotopica.
Estamos na presença de uma arquitectura de grande complexidade poética que nos remete para a valorização de um sentido de Tempo e de Espaço. Integrado numa fenomenologia de um espaço luminoso, etéreo e cosmológico.







[1] Cf. Manuel Mendes, Guia de arquitectura Moderna Porto 1901/2001, Porto, edição Ordem dos Arquitectos e Editora civilização,  2001.
[2] Cf. José António Bandeirinha, “A Arquitectura Moderna: o grau zero da memória”, in Arquitectura Moderna Portuguesa 1920/1970, p.24
[3] Esta casa não passou de projecto, isto é, não veio a ser construída.
[4] Cf. Manuel Mendes, Op. Cit. 2001.
[5] Ver o caso paradigmático da Casa que Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira projectam para Vila Viçosa , em 1958, onde pela primeira vez é encarado o processo de humanização em curso com um realismo sem precedentes  e assim, se transformando em tese experimental. A importância de responder ao problema colocado pelo sitio, pelo ambiente e pela cultura dos utilizadores, opondo-se claramente à moda de conseguir artificiais efeitos plásticos, ao gosto dos funcionalismos do Estilo Internacional.