quinta-feira, 11 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
domingo, 26 de maio de 2013
O Efeito Mobbing em torno da Habitação. Processos de resistência e de intimidação na cidade do Porto
Por Fernando Matos Rodrigues[1]
Fábio
Rodrigues Azevedo[2]
Esta intervenção pretende
trazer para o debate os problemas da habitação e do direito à habitação e à
cidade, em torno da habitação social e popular na cidade do Porto.
Ao longo destas últimas
décadas temos acompanhado e estudado este fenómeno no âmbito da cadeira de
antropologia do espaço no Curso do Mestrado Integrado em Arquitectura da Escola
Superior Artística do Porto (ESAP). Desde hà vários anos que tem sido nosso
propósito estudar a habitação popular na cidade do Porto, em torno das “Ilhas”
e dos pequenos bairros.
Elaborando relatórios a partir de uma pesquisa intensiva com base nas técnicas e métodos de estudo antropológicos, como é o caso do trabalho de campo com observação participante.
Elaborando relatórios a partir de uma pesquisa intensiva com base nas técnicas e métodos de estudo antropológicos, como é o caso do trabalho de campo com observação participante.
A partir daqui, foi-nos
possível compreender os fenómenos e os processos de resistência dos moradores
das “Ilhas” e dos “Bairros Populares” da cidade, perante os processos de
intimidação que se foram aplicando. Estes processos de intimidação foram sendo
estruturados de várias formas e feitios. Umas vezes de forma dissimulada, com a
definição de planos e de intervenções urbanísticas que levaram a uma
consequente especulação do solo urbano e a um aumento de pressão sobre os
antigos moradores.
Destacamos os planos de recuperação de algumas destas zonas antigas da cidade com a introdução de novos equipamentos e infraestruturas.Um dos últimos programas "Operação De Reabilitação Urbana Das Fontainhas" (2001), associado ao Programa Especial de Realojamento (PER). Estamos perante intervenções que têm como principal objectivo reocupar os bairros com outras funções e outros clientes. Os governos da cidade são aqui pouco claros, mas os seus técnicos e as suas instituições são claras e objectivas no que se refere à necessidade de intervir nestes cascos, mas omissas e silenciosas sobre os destinos das populações aí residentes. São os exemplos dos Bairros / Ilhas da Capela, Olimpia e Maria Victorina, num total de 164 casas e com 148 habitantes. A deslocalização e realojamento destes moradores para os bairros do Cerco, Aleixo, Lagarteiro, Falcão, etc.
Destacamos os planos de recuperação de algumas destas zonas antigas da cidade com a introdução de novos equipamentos e infraestruturas.Um dos últimos programas "Operação De Reabilitação Urbana Das Fontainhas" (2001), associado ao Programa Especial de Realojamento (PER). Estamos perante intervenções que têm como principal objectivo reocupar os bairros com outras funções e outros clientes. Os governos da cidade são aqui pouco claros, mas os seus técnicos e as suas instituições são claras e objectivas no que se refere à necessidade de intervir nestes cascos, mas omissas e silenciosas sobre os destinos das populações aí residentes. São os exemplos dos Bairros / Ilhas da Capela, Olimpia e Maria Victorina, num total de 164 casas e com 148 habitantes. A deslocalização e realojamento destes moradores para os bairros do Cerco, Aleixo, Lagarteiro, Falcão, etc.
Assim, quando alguém decide
mudar a forma e a vida de um bairro, a primeira medida a tomar é declarar como
obsoleta e anacrónica a tipologia, lançar um olhar “sanitário e higienista”
sobre as formas de organização social. Aparece o estigma, a exclusão e a
deslocação.
Fernando Távora, em Relatório (1968) sobre a complexidade do Realojamento e Deslocalização dos antigos moradores, considera que «temporário ou definitivo, no local ou fora dele, o realojamento cria em geral complexos problemas nos homens que dele são vitimas. Cortes nas relações e de laços sociais e humanos, manifestações de segregação, problemas profissionais ou de transporte. Tudo são factores de traumatismo que a mudança de habitação pode provocar»; mais afirma que «resolver o problema da casa não é tudo, por vezes, não é mesmo resolver um dos problemas mais graves, mas apenas significa criar outros problemas, como a deslocalização e desalojação».
Depois, elabora-se um Plano
“perfeito” de linhas rectas e curvas, desenhos “bonitos”, maquetas em 3D,
encomenda-se um “Relatório” sobre as questões sociais e culturais a um qualquer
gabinete de uma Universidade da cidade que fundamentará a intervenção em nome
de uma existência melhor.
De seguida, vai-se propor
ofertas de realojamento, que prejudicam sempre aqueles que não podem assumir as
novas condições que indirectamente se lhes acaba de propor com a nova
intervenção.
Simulam-se práticas de
participação para dividir os vizinhos afectados com a nova intervenção. No
fundo, vamos submeter os moradores destes bairros a uma grande pressão que os
obrigue a abandonar a sua residência (a sua casa, como gostam de lhe chamar). Deixando,
o espaço livre aos planos de refuncionalização dos seus bairros. No Porto fomos
assistindo à construção de um espaço estilizado, elitizado e especulativo na
parte antiga da cidade.
Invocando as palavras
mágicas da “reabilitação”, da “regeneração” e da “renovação” as entidades
locais de mãos dadas com os promotores imobiliários transformam estas “ilhas” e
estes “bairros populares” em zonas residenciais para as classes médias e altas.
Deslocando os antigos moradores para outras soluções de habitar que em nada
dignificam a sua vida e a sua forma de cultura urbana. São populações inteiras
que se deslocam, se dispersam, por entre as torres e os blocos sociais da
periferia. Destruimos laços de vizinhança, fragmentamos a vida social,
separamos famílias inteiras, interrompemos histórias de vida comuns.
É todo um drama social que se abate sobre a cidade.
É todo um drama social que se abate sobre a cidade.
Os poucos bairros que
resistem vivem numa absoluta agonia, perante um destino incerto e quase sempre
condenado à destruição. Numa cidade em que o maior problema ainda,e digo ainda,
é o da habitação. Será que faz sentido deitar casas abaixo, destruir bairros
inteiros, deslocar os seus moradores. Criar um problema social em vez de
resolver aqueles que nos afectam.
Mas, que soluções?
Propomos uma valorização do
habitar nas “ilhas e bairros populares da cidade”. Qualificando estruturas e
equipamentos que se encontram em estado de ruína e de abandono sistemático de
anos e anos de indiferença por parte dos organismos estatais.
Uma intervenção participada
entre moradores, associações de moradores, juntas de freguesia, e poderes
locais e centrais, de forma a dotar estes pequenos bairros das condições para
um habitar inclusivo e amigo da pessoa, da família e da sociedade.
Em Portugal, foram várias as
formas de intervenção na área da habitação social. O Estado Novo com o programa
das Casas Económicas (1933), os Privados, e as Instituições Sociais e Matriz
Religiosa. Depois, com o 25 de Abril assistimos ao processo SAAL que introduziu
a auto-construição em processos participativos. Os Blocos e as Torres. As
Cooperativas. Por ultimo, os imobiliários especulativos.
[1]
Antropólogo do Espaço. Professor no Mestrado Integrado em Arquitectura ESAP.
Mestre em Antropologia pela Univ. do Minho; Curso de Doutoramento em Teoria da
Arquitectura e Projecto Arquitectónico
pela ESTA da Univ. de Valladolid; Doutorando em Antropologia e Sociologia no
ICS da Universidade de Braga, com a investigação sobre “Habitação Para Todos.
Processos de Resistência no Direito à Habitação e Cidadania Activa”. Coordena a
implementação do Laboratório Habitar e Sociedade XXI.
[2]
Arquitecto. Mestre em Arquitectura pela Escola Superior Artística do Porto com
a tese sobre “As Ilhas do Porto. Proposta de Habitação Básica em Processos de
Auto-Construção”; Faz parte do Grupo de Estudos sobre as Ilhas do Porto
integrado no Laboratório Habitar e Sociedade XXI, em implementação.
A Cidade da Reabilitação - políticas públicas e privatização do espaço urbano
Nota: muito brevemente neste blog.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
O Sentimento do Habitar na Cidade do Porto
A abordagem ao tema das
identidades e representações do ambiente numa «Ilha», parte sempre do
pressuposto de que existe alguém que classifica, que identifica, que dá nome a
um espaço de vida que interage entre um interior (o “nós”) e um exterior (o
“outro”). Para além de um conjunto variado de atributos que nos levam
posteriormente a falar das identidades e das representações de um ambiente
específico e singular de um espaço concreto. Neste caso a fabricação de uma
identidade do ambiente «Ilha» parte de dois movimentos de classificação, um
exterior à própria comunidade que habita a «ilha»; e um outro, que parte do seu
mundo social e estabelece uma ponte entre a classificação que é produzida fora
e aquela que se constrói no interior da ilha, que muitas vezes funciona como
uma resposta de sublimação ao problema da habitação. Uma contraposição à
identidade fabricada pelo exterior, e, que pode ser negativa ou deteriorada
segundo Goffman (1988).
Por exemplo Fischer (1994:16
ss.) considera que o espaço é o espelho de um mundo fabricado, modelado pelo
homem. O espaço é assim «objeto de uma nova
interpretação: a realidade dos nossos comportamentos, e também a vida social,
produzem-se e desenvolvem-se em lugares diversos que são mais que puros
envelopes exteriores». Evidentemente, que, na classificação e na
identificação do tipo «Ilha», os elementos arquitetónicos e urbanos, são sem
dúvida, uma das suas matrizes que melhor nos explicam a experiencia individual
e coletiva do ambiente numa «Ilha».
O simples ocupar do espaço já é sem dúvida uma
primeira manifestação de existência social. Por exemplo, as manifestações de
apropriação do espaço ilha vão desde a colocação de vasos por tudo o que é
sitio, desde o corredor, as pequenas escadas, em cima dos muros que dividem o
bairro do outro bairro, contiguo à ilha, da colocação de pequenos azulejos à entrada
da casa, pequenos alpendres, estendais de roupa que vão de um limite da casa
até ao outro extremo, respeitando as fronteiras e os limites do vizinho,
marcação rigorosa da parede da ilha que lhe está confinada, de um azul bem
portista, gaiolas com pássaros, cadeiras encostadas à parede, sapatos e
sandálias, degraus de entrada diferenciados, portas metalizadas, de madeira,
umas brancas de um lacado novo, outras de um zarcão gasto lembrando o peso da
memória. Aqui, a representação social está ainda e indissociavelmente ligada ao
sujeito que a produz. Assim, perante uma comunidade que procura na ocupação do
espaço e na sua individualização uma identidade e uma singularidade impositiva
fundamental à sua co-habitação num espaço fechado e socialmente comprimido.
Um universo de linguagens, de
representações, de gestos, de palavras, de objetos, de símbolos que dão a
conhecer uma micro-comunidade, contribuindo também para a sua afirmação
identitária no contexto mais amplo da cidade. A partir do qual a «ilha» constrói
a sua identidade em oposição ao outro que vive fora do seu contentor social, em
forma de corredor estreito e densificado por casitas rasteiras produto de um
programa simples e informal. O paradoxo é medonho, a fronteira é real e a outra
cidade, mais rica e opulente, do lado de fora determina e classifica a «ilha»
que vive do silêncio e do vazio da cidade.
Espaços e tempos de uma
narrativa identitária que nos levam à construção de um lugar de viver e de
habitar, espaço nosso em oposição ao
espaço dos outros. No fundo, aquilo
que as pessoas são liga-se intimamente ao espaço apropriado. Este espaço é o
espaço onde se nasce e se cria, aquele espaço que se liga à história do
crescimento do corpo e da personalidade. Esta construção social da identidade
em função de uma apropriação especifica, é bem visível neste relato que nos faz
uma criança de oito anos de idade, que dá pelo nome de Cecília Raquel, que vive
com a sua família, avós e tios na Ilha
das Larangeiras:
“Chama-se Ilha das Larangeiras,
porque antigamente era um campo com muitas larangeiras.
Tenho a minha avó, o meu avô,
o meu tio, a minha tia e a minha prima que vivem noutra casa.
Brincar às escolas é o que
mais gosto de fazer lá.
Brinco no pátio da minha avó.
A minha casa fica húmida quando
chove. É pequena mas está arrumadinha e limpa. Eu tenho gosto por ela.
Moro lá com o meu pai, a minha
mãe e o meu irmão.
Gosto de morar lá porque
conheço muita gente e tenho lá muitas amigas.
Quando brincamos na Ilha nós
nunca saímos para a Estrada sem ordem dos pais”.
«A Ilha onde eu moro é muito
bonita.
Eu brinco sempre lá dentro com
as minhas amigas que moram lá.
Só os meninos de lá é que lá
brincam.
Nós brincamos no pátio às
escondidas, caçadinhas, às escolinhas e às casinhas.
A casa de banho só tem sanitas
e chuveiro que o meu cunhado fez.
É para mim e para a minha
vizinha.
Ás vezes o esgoto que há lá
está entupido e deita fora e cheira mal.
A minha casa tem uma janela
que é do quarto da minha mãe.
A sala não tem janela.
O tanque da roupa está cá fora».
Ao longo destes relatos
podemos constatar a afirmação dos aspetos positivos do viver na «ilha»,
elementos de forte carga interativa entre atores que comungam do mesmo espaço,
da mesma espacialidade, do mesmo imaginário, do mesmo amor ao sítio de refúgio e
de jogo social. Estamos perante a consciência do espaço que existe para nós, na feliz expressão de «eu
brinco lá dentro com as minhas amigas que moram lá», um sentimento
profundo de apropriação e de partilha entre eles que são de lá. Estamos perante
o espaço que empírica e pormenorizadamente se conhece, o espaço que se percorre
a pé, e se vê e sente como nosso.
Dentro deste espaço as
crianças encontram a segurança e a proteção que a rua lhes tira e não dá, é
como se vivessem num paraíso perdido nesta Galáxia hiperativa em que se
transformou a cidade. Esta relação de apropriação do espaço de dentro, afirma a
sua diferenciação e a sua identidade em oposição com o espaço de fora, isto é,
o espaço dos outros, que é diferente do da «ilha», e do qual se desconfia por
ser considerado um espaço inseguro e de perigos. A ilha é assim um espaço mais
ou menos idílico, sem violências entre vizinhos, com uma relação de vizinhança
com fortes vínculos afetivos, assente no nascimento e no casamento, isto é, os
atuais residentes das ilhas do Porto são filhos e netos dos primeiros moradores
que vieram para o Porto em finais do Século XIX ou inícios do Século XX, e
desse modo olham para a «ilha» como o seu lugar, a sua terra, o seu ninho.
O Senhor José Fontelas,
nascido e residente na Ilha da Bela Vista, localizada na Rua D. João IV,
freguesia de Bonfim.
Afirma categoricamente: «daqui
só para o Prado do Repouso! Esta é a minha Ilha!» Refere ainda «A
convivência aqui é maravilha». Uma das expressões que mais gosta de
usar quando fala da sua ilha, do seu bairro.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
A Ilha do Fernando da Loja - Rua de S. Victor Bonfim
Documentário realizado no âmbito da Cadeira de Antropologia do Espaço, MIA-ESAP
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