quarta-feira, 7 de novembro de 2012
terça-feira, 6 de novembro de 2012
ILHAS DO PORTO PROJECT - 2013
- Cartografias Invisivéis de Habitar a Cidade
1 -Introdução
Este Porjecto sobre as Cartografias Invisivéis do Habitar, insere-se no âmbito do programa da cadeira de Antropologia do Espaço, do 2.º ano do Mestrado Integrado em Arquitectura na ESAP 2012/2013.
Ao longo de mais de duas décadas que estudamos o fenómeno do habitar em torno das Ilhas da Cidade Metropolitana do Porto. Os alunos do Mestrado Integrado de Arquitectura têm desenvolvido um conjunto diversificado de estudos sobre as formas e os modos do habitar nas Ilhas da cidade.
Ao longo de mais de duas décadas que estudamos o fenómeno do habitar em torno das Ilhas da Cidade Metropolitana do Porto. Os alunos do Mestrado Integrado de Arquitectura têm desenvolvido um conjunto diversificado de estudos sobre as formas e os modos do habitar nas Ilhas da cidade.
Neste Projecto associamo-nos ao Instituto Superior de Serviço Social do Porto, uma instituição Universitária com grande tradição no estudo das Ilhas e na formação de técnicos superiores nas áreas do Serviço e Apoio Social.
Contamos assim, com a colaboração da Professora Berta Granja e dos seus estagiários. Bem como de toda a equipa que nos tem acompanhado nestes últimos anos, Mestre Maria João Carvalho (CMP); Drª Ana Natálio(FEUP), o Arqto Filipe Silva (MIA-ESAP),Prof. Arqto David Viana (MIA-ESAP), Professor J A Rio Fernandes (FLUP), Director do Curso de Arquitectura Nicolau Brandão e do Prof. Gonçalo Louro; Susana Milão; Michelle Cannatà (MIA-ESAP), Jorge Ricardo Pinto (MIA-ESAP/FLUP), Arqto Manuel Ribeiro (C.M.P.), Prof,Arqto João Granadeiro Cortesão (FEUP) o escritor e jornalista Germano Silva, que com a sua sabedoria e o seu conhecimento sobre a cidade nos tem dado aquele suplemento intelectual e afectivo que tanto nos motiva e enriquece.
Contamos assim, com a colaboração da Professora Berta Granja e dos seus estagiários. Bem como de toda a equipa que nos tem acompanhado nestes últimos anos, Mestre Maria João Carvalho (CMP); Drª Ana Natálio(FEUP), o Arqto Filipe Silva (MIA-ESAP),Prof. Arqto David Viana (MIA-ESAP), Professor J A Rio Fernandes (FLUP), Director do Curso de Arquitectura Nicolau Brandão e do Prof. Gonçalo Louro; Susana Milão; Michelle Cannatà (MIA-ESAP), Jorge Ricardo Pinto (MIA-ESAP/FLUP), Arqto Manuel Ribeiro (C.M.P.), Prof,Arqto João Granadeiro Cortesão (FEUP) o escritor e jornalista Germano Silva, que com a sua sabedoria e o seu conhecimento sobre a cidade nos tem dado aquele suplemento intelectual e afectivo que tanto nos motiva e enriquece.
Procedimento metodológico
A partir de uma base teórica e de um conjunto de instrumentos e técnicas de pesquisa, associando as competências naturais que um aluno de Arquitectura adquire no seu curso (desenho de estudo, maquetes de estudo, levantamentos rigorosos, etc.), os alunos vão para um contexto de estudo de caso, onde o trabalho de campo lhes permite estudar, caracterizar e identificar as diversas tipologias e mapas de apropriação do espaço num bairro - tipo Ilha.
O tema deste ano está associado à ideia de que a Ilha é um Bairro Invisivel no contexto da cidade aberta e conhecida, partilhada por todos, os de cá e os de lá, os de dentro e os de fora.
Ao longo destas últimas
duas décadas fomos visitando estes bairros da cidade, falando com os seus
residentes e respectivas associações de moradores
acompanhando os seus trajectos de vida, partilhando experiências e discutindo alternativas
e modelos para a sua renovação arquitetónica e valorização enquanto tipologia
tipicamente urbana. Visitamos as suas pequenas casas, partilhamos a sua mesa, a
sua hospitalidade, as suas aspirações e a sua vizinhança. A partir daqui, foi possível
sistematizar um conjunto de instrumentos que nos permitiram compreender a
habitação, os modos de habitar, a sua espacialização, as suas relações sociais
e respectivos jogos identitários nas ilhas do Porto.
Para nós, que estamos a estudar e a ensinar Antropologia
do Espaço a alunos de arquitetura, e, considerando mesmo, que a arquitetura
deve manter uma função social, e deste modo patrocinar uma intervenção
programática e conceptual ao serviço das classes e dos grupos sociais mais
vulneráveis e excluídos da nossa cidade, fomos acompanhando as aspirações, os problemas e as dificuldades destas populações que vão resistindo e se adaptando à cidade global e periférica, em rede se quiserem[1].
Este nosso trabalho sobre as ilhas do Porto, é uma experiência única quer do
ponto de vista social e humano, quer também do ponto de vista do entendimento
do que é viver e habitar nas ilhas da nossa cidade.
Aos nossos alunos e foram muitos que ao longo destes vinte e dois anos nos acompamharam, neste Projecto de Arquitectura e Intervenção Social, o nosso muito obrigado. Quer pelo empenho e competencia na elaboração dos estudos e propostas de intervenção arquitectónica, quer pela sua sensibilidade estética e social, de forma a contribuirem para um melhor e mais qualificado espaço do habitar - a ilha.
Aos nossos alunos e foram muitos que ao longo destes vinte e dois anos nos acompamharam, neste Projecto de Arquitectura e Intervenção Social, o nosso muito obrigado. Quer pelo empenho e competencia na elaboração dos estudos e propostas de intervenção arquitectónica, quer pela sua sensibilidade estética e social, de forma a contribuirem para um melhor e mais qualificado espaço do habitar - a ilha.
Sobre a importância dos
bairros populares dentro da cidade consolidada, M. CASTELLS e J. BORJA (1997:207
e ss.) consideram que perante a explosão social e a fragmentação da morfologia
urbana, bem como perante a exclusão urbana e a guetização das camadas mais
desprotegidas. Torna-se imperativo apontar para uma valorização categórica e urgente destas "ilhas", de forma implementar
políticas de direito à cidade e à habitação, valorizando a integração de grupos
sociais e económicos heterogéneos e diferenciados. Contribuindo para a inclusão
urbana a partir de uma maior complexidade social, económica e política.
Este estudo estruturou-se a
partir de um conjunto de métodos qualitativos e de teorias próprias da
Antropologia do Espaço, que dessem resposta ao nosso projeto de estudo sobre as
«Ilhas» na cidade do Porto.
Em especial, utilizamos os instrumentos
antropológicos, que nos remetem para um certo intimismo das respostas e das
experiencias dos seus atores. Privilegiando os estudos qualitativos, desde as
entrevistas informais e formais, passando pelas análises etnográficas de casos
concretos.
Trata-se de um modelo interpretativo e explicativo próprio do método
weberiano da compreensão. Neste contexto os autores clássicos como Durkheim,
Weber, Marx, que acompanharam todo o pensamento moderno tornaram-se
obrigatoriamente referências para este tipo de estudos de antropologia urbana
ou do espaço urbano, como é o caso das «Ilhas» do Porto.
Conceitos como
comunidade, sociedade, reciprocidade, afetividade, ganham aqui e agora um papel
central na explicação e na compreensão destes fenómenos sociais. Sobre esta
problemática Parsons por exemplo, desenvolve alguns estudos, que nos levam a
questionar as chamadas «variáveis-padrão», em torno dos conceitos comunidade e
sociedade, apontando como características de uma comunidade: a orientação
coletiva; a afetividade; a “ascription”; a difusidade; e os
particularismos.
Este tipo de esquema se inicialmente foi considerado típico
das sociedades rurais, depressa se verifica que não é de todo nem em parte
verdade; pois, pode também acontecer nas sociedades urbanas. E no caso concreto
das «Ilhas» do Porto ele é duplamente constatado pelo facto de serem pequenas
comunidades que vivem mergulhadas para o seu interior e com uma população com
origem campesina.
Local de Intervenção
- Ilhas das Freguesias do Bonfim e de Campanhã / Porto.
Visitas aos locais de estudo
- Dia 24 de Novembro das 9.00 às 18.30
Local de encontro
- Largo de S. Domingos (ESAP), com partida às 8.40
[1] Como por exemplo, a Associação de Moradores do Bairro da Bouça, e a
Associação de Moradores da Ilha da Bela Vista. Foram várias as iniciativas em
que o Senhor Fontelas e o Senhor Mário Pinto (Presidente e Vice-Presidente da
Associação de Moradores da Ilha da Bela Vista, participaram dando a sua opinião
e discutindo com os alunos e professores do Curso de Arquitetura da ESAP, fosse
em contexto de Aula Aberta ou nos Debates/Mesas-Redondas que organizamos no
Plano B, no Labirinto Bar, Auditório do Palácio da Bolsa, ou ainda no
Restaurante “Canto do Rocha” sito na Rua de S. Victor, um dos locais mais
emblemáticos das Ilhas do Porto, ou mesmo em contexto de trabalho de campo na
Ilha, as várias possibilidades e as várias funções que a ilha da Bela Vista
poderia albergar num projecto futuro.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Familia de Etnia Cigana ocupa largo central do Bairro do Cerco - Porto
A habitação e o direito à habitação estão na agenda social e politica do nosso país e do mundo em geral. É impressionante o número de pessoas que não têm ainda um abrigo para viver e desenvolver as suas tarefas minimas de bem estar social, ambiental e cultural.
Na cidade do Porto o problema é de grande complexidade pelo número de pessoas que vivem em situações de grande fragilidade social e ambiental, bem como uma grande percentagem que ainda não consegue fazer face aos custos de uma habitação digna.
Este caso da familia Mariano que vivia numa tenda instalada em pleno largo do Bairro do Cerco, é um exemplo dessa falta de uma politica habitacional para dar resposta a aqueles que não possuem nada, mesmo nada que os possa habilitar a ter uma casa no âmbito da politica social do municipio portuense.
Esta tenda que serve de habitação a um casal e a quatro filhos com as idades de 4,6,7,15 e 17 anos de idade, é no fundo uma instalação viva, com pessoas lá dentro, com sentimentos, com indignação por parte daqueles que em pleno século XXI ainda não têm um pequeno casulo onde se possam proteger da natureza e dos olhares descriminatórios da sociedade. O racismo também mora por estes lados, não tem cor, nem sexo, sem religião; mas é fruto de uma classificação liberal de ter ou não sucesso nesta sociedade de capitalismo selvagem.
Quando se gastam milhares de milhões em submarinos, em material de guerra, em desperdicios e em corrupção, lá fora temos familias com crianças e velhos a passar fome e a mendigar um abrigo.
Esta sociedade é demasiado agreste e fria, calculista e racional, e é fonte de todos os males sociais. É preciso uma nova Agenda Politica, mais solidária e humanista. Que abandone as palavras e os discursos e nos actos demonstre a sua matriz social de inclusão para todos.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O Espaço Antropológico - complexidade e epistemologia do lugar metropolitano
1. Estar ali...
Como nos refere Geertz (1989:11) a pesquisa antropológica pretende construir análises explicativas dos lugares, dos espaços habitados de forma a construir categorias familiares e ordenadas, como por exemplo, isto aqui é magia, aquilo acolá é tecnologia, etc. No fundo, para este autor o que um bom antropólogo deve fazer, é ir aos sítios e voltar com informação sobre as pessoas que aí vivem, e colocar essa informação à disposição da comunidade profissional de um modo prático, em vez de andar pelas bibliotecas a divagar sobre questões literárias. Considera mesmo que o importante e fundamental são «los tikopia y los tallensi en sí mismos, y no las estrategias narrativas de Raymond Firtth, o los mecanismos retóricos de Meyer Fortes» (Geertz,1989:11). Não estando em desacordo com a importância do trabalho de campo no estudo antropológico de comunidades e suas culturas, não posso contudo deixar passar este dramatismo obsessivo de Geertz contra a construção das narrativas antropológicas sobre estas comunidades e culturas.Pois, considero importante a pesquisa bibliográfica de monografias antropológicas para melhor se compreender o objecto de estudo na sua complexidade epistemológica e metodológica. A leitura e estudo das monografias clássicas não devem ser entendidas como um fim em si mesmo, mas como um instrumento que nos possibilita caminhar na procura de outras leituras e de outras interpretações sobre a mesma ou outras comunidades ou povos e nos possibilita alargar a nossa capacidade analítica e interpretativa dos fenómenos sociais.
Para María Cátedra o estudo antropológico centra-se no problema da descrição -, como se representa a realidade social. Assim, para esta antropóloga espanhola, «el enfoque pues, trata de plantear y compreender el proprio proceso de investigación: las bases epistemológicas de las descripciones, la naturaleza del conocimiento y el análisis etnográfico. Finalmente es un ejemplo definitivo de que el silencio sobre la escritura etnográfica se ha roto» (1992: 9-10).
Qualquer estratégia metodológica pretende sempre atingir um conhecimento complexo e objectivo sobre a realidade que se estuda, seja um bairro, uma rua, uma comunidade especifica, ou até mesmo uma cidade. Para a antropologia do espaço ou para a antropologia urbana uma das suas técnicas mais características é o clássico trabalho de campo («fieldwork») a partir do qual se podem construir narrativas de grande complexidade etnográfica. Sobre a importância do trabalho de campo nas pesquisa antropológica, James Clifford num texto intitulado «On Etnhographic Authority» (1988), proclama, a exigência de trabalho de campo é uma reivindicação de autoridade e legitimidade cientifica para que se deixe de fazer antropologia de gabinete e se produza verdadeiro conhecimento antropológico. É o trabalho de campo prolongado que transforma o antropólogo num especialista sobre o contexto social que estudou. A legitimidade do conhecimento produzido pelo antropólogo decorre precisamente do facto de «ele ter estado lá». Nesse sentido, o carácter experimental da forma como foi adquirido o conhecimento é o fundamento da autoridade cientifica (Cfr.Ramon Sarró; Antónia Pedroso de Lima, 2006:17 e ss.).
Mas todo o trabalho de campo per si só não nos permite conhecer e construir narrativas ou discursos sobre uma comunidade ou um bairro, é necessário todo um enquadramento teórico especifico da etnografia e da antropologia, a partir da qual elaboramos um discurso narrativo ou metafórico sobre o objecto de estudo. Associado ao trabalho de campo está a observação participante, que nos permite «face to face», interagir com a unidade de terreno (Cfr. Ervin Goffman, 1994).
A necessidade de ir para o terreno, contactar com as pessoas, com as suas mundividências, com a sua vida quotidiana, partilhar os seus medos e aspirações, etc, é uma forma de conhecer e de compreender o objecto de estudo. Neste sentido, para alguns antropólogos o trabalho de campo é constitutivo do próprio processo de produção cientifica da antropologia e não apenas a estratégia metodológica que define a disciplina (Cfr. Ramon Sarró; Antónia Pedrosa de Lima, 2006: 20-21).
Todo o processo de trabalho de campo decorre ao longo da interacção que se estabelece com a unidade de terreno que se vai estudar, por exemplo, uma «Ilha na Cidade do Porto» implica todo um contexto de trabalho, de inquérito, de entrevista, de registo, de recolher informação -, as notas de terreno. A utilização das novas tecnologias de registo como por exemplo a máquina de filmar, a máquina fotográfica, o desenho de estudo, que os alunos de arquitectura utilizam para caracterizar o sitio de estudo, etc. O que escrever e a onde escrever e quando escrever. São preocupações de todo aquele que faz trabalho de campo e se depara com essas dificuldades. A importância da conversação com as pessoas que residem numa «Ilha»; que vai desde o simples «Bom dia...», até à interpelação «Será que podemos...». A capacidade de transgredir, de invadir o espaço do outro, de forma a recolher a informação necessária para a realização do nosso estudo. Que vai desde a rua até à porta de entrada, com o passar da soleira em granito velho para o interior do corredor comprido que dá acesso ao patio central, no fundo é todo um ritual de integração complexo do estranho que se mistura com os moradores dos bairros. Um ritual de aprendizagem, uma espécie de baptismo antropológico no mundo da ciência social aplicada a um contexto de estudo de caso (Case Studies). A ideia de que «não se pode desperdiçar nenhum momento nem nenhum lugar para escrever alguma coisa que nos pareça importante no decorrer da investigação empírica» (Cfr.Sarró; Lima,2006:23).
Assim, segundo Sarró e Lima (2006) fazer trabalho de campo em contextos metropolitanos significa pôr à prova o verdadeiro desafio da antropologia. Todos sabemos, pelo menos desde que começaram as discussões sobre o trabalho de campo at home, que não é a distância geográfica que promove um olhar distanciado e que a proximidade não é sinónimo de conhecimento (Strathern,1987; Pina Cabral,1991; Lima, 1997). Contudo, a atitude de «estranhamento» e a problematização do real social é algo que todo o antropólogo tem necessariamente de fazer para compreender e conhecer o lugar de estudo.
Néstor García Canclini (1999) considera que a antropologia dispõe de instrumentos qualificados para entender os sistemas cognitivos e valorativos produzidos em contextos urbanos, as relações da sua estrutura actual com a história, da modernidade com as tradições. Ao interessar-se particularmente pela diversidade que contêm as cidades, a pesquisa antropológica permite sair das generalizações homogéneas habituais dos trabalhos sociológicos, económicos e políticos que preferem falar de totalidades compactas, ou reduzem as diferenças aos indicadores dos censos e das entrevistas (cit.Signorelli, 1999: XI). Canclini reforça também a ideia da importância do trabalho de campo, quando afirma que para compreender o homo urbanus é necessário «explorar, en las interacciones ambivalentes de los sujuetos y los grupos, las peripecias de la multiculturalidade. Se necessitan tanto los censos y estadisticas como la observación densa de lo que ocurre en los espacios produtivos, residenciales y de consumo» (Idem:XI). Estamos perante a valorização de uma espécie de empirismo antropológico, amiúdo limitado a descobrir as particularidades do concreto. Se trata de situar «a los hombres en el espacio y con la conciencia cultural de esa relación».
Como nos refere Geertz (1989:11) a pesquisa antropológica pretende construir análises explicativas dos lugares, dos espaços habitados de forma a construir categorias familiares e ordenadas, como por exemplo, isto aqui é magia, aquilo acolá é tecnologia, etc. No fundo, para este autor o que um bom antropólogo deve fazer, é ir aos sítios e voltar com informação sobre as pessoas que aí vivem, e colocar essa informação à disposição da comunidade profissional de um modo prático, em vez de andar pelas bibliotecas a divagar sobre questões literárias. Considera mesmo que o importante e fundamental são «los tikopia y los tallensi en sí mismos, y no las estrategias narrativas de Raymond Firtth, o los mecanismos retóricos de Meyer Fortes» (Geertz,1989:11). Não estando em desacordo com a importância do trabalho de campo no estudo antropológico de comunidades e suas culturas, não posso contudo deixar passar este dramatismo obsessivo de Geertz contra a construção das narrativas antropológicas sobre estas comunidades e culturas.Pois, considero importante a pesquisa bibliográfica de monografias antropológicas para melhor se compreender o objecto de estudo na sua complexidade epistemológica e metodológica. A leitura e estudo das monografias clássicas não devem ser entendidas como um fim em si mesmo, mas como um instrumento que nos possibilita caminhar na procura de outras leituras e de outras interpretações sobre a mesma ou outras comunidades ou povos e nos possibilita alargar a nossa capacidade analítica e interpretativa dos fenómenos sociais.
Para María Cátedra o estudo antropológico centra-se no problema da descrição -, como se representa a realidade social. Assim, para esta antropóloga espanhola, «el enfoque pues, trata de plantear y compreender el proprio proceso de investigación: las bases epistemológicas de las descripciones, la naturaleza del conocimiento y el análisis etnográfico. Finalmente es un ejemplo definitivo de que el silencio sobre la escritura etnográfica se ha roto» (1992: 9-10).
Qualquer estratégia metodológica pretende sempre atingir um conhecimento complexo e objectivo sobre a realidade que se estuda, seja um bairro, uma rua, uma comunidade especifica, ou até mesmo uma cidade. Para a antropologia do espaço ou para a antropologia urbana uma das suas técnicas mais características é o clássico trabalho de campo («fieldwork») a partir do qual se podem construir narrativas de grande complexidade etnográfica. Sobre a importância do trabalho de campo nas pesquisa antropológica, James Clifford num texto intitulado «On Etnhographic Authority» (1988), proclama, a exigência de trabalho de campo é uma reivindicação de autoridade e legitimidade cientifica para que se deixe de fazer antropologia de gabinete e se produza verdadeiro conhecimento antropológico. É o trabalho de campo prolongado que transforma o antropólogo num especialista sobre o contexto social que estudou. A legitimidade do conhecimento produzido pelo antropólogo decorre precisamente do facto de «ele ter estado lá». Nesse sentido, o carácter experimental da forma como foi adquirido o conhecimento é o fundamento da autoridade cientifica (Cfr.Ramon Sarró; Antónia Pedroso de Lima, 2006:17 e ss.).
Mas todo o trabalho de campo per si só não nos permite conhecer e construir narrativas ou discursos sobre uma comunidade ou um bairro, é necessário todo um enquadramento teórico especifico da etnografia e da antropologia, a partir da qual elaboramos um discurso narrativo ou metafórico sobre o objecto de estudo. Associado ao trabalho de campo está a observação participante, que nos permite «face to face», interagir com a unidade de terreno (Cfr. Ervin Goffman, 1994).
A necessidade de ir para o terreno, contactar com as pessoas, com as suas mundividências, com a sua vida quotidiana, partilhar os seus medos e aspirações, etc, é uma forma de conhecer e de compreender o objecto de estudo. Neste sentido, para alguns antropólogos o trabalho de campo é constitutivo do próprio processo de produção cientifica da antropologia e não apenas a estratégia metodológica que define a disciplina (Cfr. Ramon Sarró; Antónia Pedrosa de Lima, 2006: 20-21).
Todo o processo de trabalho de campo decorre ao longo da interacção que se estabelece com a unidade de terreno que se vai estudar, por exemplo, uma «Ilha na Cidade do Porto» implica todo um contexto de trabalho, de inquérito, de entrevista, de registo, de recolher informação -, as notas de terreno. A utilização das novas tecnologias de registo como por exemplo a máquina de filmar, a máquina fotográfica, o desenho de estudo, que os alunos de arquitectura utilizam para caracterizar o sitio de estudo, etc. O que escrever e a onde escrever e quando escrever. São preocupações de todo aquele que faz trabalho de campo e se depara com essas dificuldades. A importância da conversação com as pessoas que residem numa «Ilha»; que vai desde o simples «Bom dia...», até à interpelação «Será que podemos...». A capacidade de transgredir, de invadir o espaço do outro, de forma a recolher a informação necessária para a realização do nosso estudo. Que vai desde a rua até à porta de entrada, com o passar da soleira em granito velho para o interior do corredor comprido que dá acesso ao patio central, no fundo é todo um ritual de integração complexo do estranho que se mistura com os moradores dos bairros. Um ritual de aprendizagem, uma espécie de baptismo antropológico no mundo da ciência social aplicada a um contexto de estudo de caso (Case Studies). A ideia de que «não se pode desperdiçar nenhum momento nem nenhum lugar para escrever alguma coisa que nos pareça importante no decorrer da investigação empírica» (Cfr.Sarró; Lima,2006:23).
Assim, segundo Sarró e Lima (2006) fazer trabalho de campo em contextos metropolitanos significa pôr à prova o verdadeiro desafio da antropologia. Todos sabemos, pelo menos desde que começaram as discussões sobre o trabalho de campo at home, que não é a distância geográfica que promove um olhar distanciado e que a proximidade não é sinónimo de conhecimento (Strathern,1987; Pina Cabral,1991; Lima, 1997). Contudo, a atitude de «estranhamento» e a problematização do real social é algo que todo o antropólogo tem necessariamente de fazer para compreender e conhecer o lugar de estudo.
Néstor García Canclini (1999) considera que a antropologia dispõe de instrumentos qualificados para entender os sistemas cognitivos e valorativos produzidos em contextos urbanos, as relações da sua estrutura actual com a história, da modernidade com as tradições. Ao interessar-se particularmente pela diversidade que contêm as cidades, a pesquisa antropológica permite sair das generalizações homogéneas habituais dos trabalhos sociológicos, económicos e políticos que preferem falar de totalidades compactas, ou reduzem as diferenças aos indicadores dos censos e das entrevistas (cit.Signorelli, 1999: XI). Canclini reforça também a ideia da importância do trabalho de campo, quando afirma que para compreender o homo urbanus é necessário «explorar, en las interacciones ambivalentes de los sujuetos y los grupos, las peripecias de la multiculturalidade. Se necessitan tanto los censos y estadisticas como la observación densa de lo que ocurre en los espacios produtivos, residenciales y de consumo» (Idem:XI). Estamos perante a valorização de uma espécie de empirismo antropológico, amiúdo limitado a descobrir as particularidades do concreto. Se trata de situar «a los hombres en el espacio y con la conciencia cultural de esa relación».
2.Habitar ali...
As Ilhas são uma espécie de corredores estreitos, compridos, com casas muito pequenas alinhadas em filha de cada um dos lados do corredor. Outras há que se organizam em torno de um pátio comum, a partir do qual se configuram relações fortes de vizinhança e proximidade. Porta sim, porta não, lá estão elas, uma espécie de ninhos ou conchas, que albergam famílias que no seu interior definem trajectos de vida e realizam os seus sonhos e aspirações sociais e culturais. A sua localização na cidade, permite-lhes usufruir de um estatuto de cidadania plena -, de pertença à cidade. Elas são cidade, elas fazem cidade. As ilhas da cidade do Porto inscrevem-se assim num sitio, num lugar com história e memória que se perde no tempo da longa duração da história da cidade. São uma espécie de elemento material e simbólico importante na construção da identidade cultural da cidade do Porto. Mas, elas também foram vitimas da segregação de higienistas e políticos que viam nas ilhas a fonte de todos os pecados urbanos(Cfr Ricardo Jorge,1897, 1899).
Estas Ilhas com a sua toponimia, muitas vezes associada ao seu senhorio ou a algum elemento cultural ou natural, como por exemplo, a «Ilha da Oliveira», a «Ilha do Poço», a «Ilha da Fama», a «Ilha do Tiço», a «Ilha do Geno», traduzem as suas idiossincrasias tipológicas e culturais. Actualmente, as suas populações são muito diversas e multiculturais, dando a estas tipologias um certo ar de espaços pós-modernos globalizados. Outras, mantêm a sua matriz inicial, com as mesmas populações que aí habitam à mais de três e quatro décadas, algumas inclusive aí já nasceram e casaram e continuam a manter esta relação de residência com os mesmos vizinhos e as mesmas casas. Existem casos, como o da D. Celeste (com 86 anos, natural de Celorico de Basto), que aí criou os seus dois filhos, hoje formados pela Universidade do Porto, e os seus três netos, que sempre vieram brincar para o pátio da sua ilha. Ainda, hoje, um dos seus netos professor no ensino secundário no Concelho de Castelo de Paiva adora visitar a sua avó e dormir na sua ilha como gosta de lhe chamar.
Nota: continua...mas pode ler e consultar entretanto!
Nota: continua...mas pode ler e consultar entretanto!
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