sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Familia de Etnia Cigana ocupa largo central do Bairro do Cerco - Porto

A habitação e o direito à habitação estão na agenda social e politica do nosso país e do mundo em geral. É impressionante o número de pessoas que não têm ainda um abrigo para viver e desenvolver as suas tarefas minimas de bem estar social, ambiental e cultural.

Na cidade do Porto o problema é de grande complexidade pelo número de pessoas que vivem em situações de grande fragilidade social e ambiental, bem como uma grande percentagem que ainda não consegue fazer face aos custos de uma habitação digna.

Este caso da familia Mariano que vivia numa tenda instalada em pleno largo do Bairro do Cerco, é um exemplo dessa falta de uma politica habitacional para dar resposta a aqueles que não possuem nada, mesmo nada que os possa habilitar a ter uma casa no âmbito da politica social do municipio portuense.

Esta tenda que serve de habitação a um casal e a quatro filhos com as idades de 4,6,7,15 e 17 anos de idade, é no fundo uma instalação viva, com pessoas lá dentro, com sentimentos, com indignação por parte daqueles que em pleno século XXI ainda não têm um pequeno casulo onde se possam proteger da natureza e dos olhares descriminatórios da sociedade. O racismo também mora por estes lados, não tem cor, nem sexo, sem religião; mas é fruto de uma classificação liberal de ter ou não sucesso nesta sociedade de capitalismo selvagem.

Quando se gastam milhares de milhões em submarinos, em material de guerra, em desperdicios e em corrupção, lá fora temos familias com crianças e velhos a passar fome e a mendigar um abrigo.

Esta sociedade é demasiado agreste e fria, calculista e racional, e é fonte de todos os males sociais. É preciso uma nova Agenda Politica, mais solidária e humanista. Que abandone as palavras e os discursos e nos actos demonstre a sua matriz social de inclusão para todos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Espaço Antropológico - complexidade e epistemologia do lugar metropolitano

1. Estar ali...


Como nos refere Geertz (1989:11) a pesquisa antropológica pretende construir análises explicativas dos lugares, dos espaços habitados de forma a construir categorias familiares e ordenadas, como por exemplo, isto aqui é magia, aquilo acolá é tecnologia, etc. No fundo, para este autor o que um bom antropólogo deve fazer, é ir aos sítios e voltar com informação sobre as pessoas que aí vivem, e colocar essa informação à disposição da comunidade profissional de um modo prático, em vez de andar pelas bibliotecas a divagar sobre questões literárias. Considera mesmo que o importante e fundamental são «los tikopia y los tallensi en sí mismos, y no las estrategias narrativas de Raymond Firtth, o los mecanismos retóricos de Meyer Fortes» (Geertz,1989:11). Não estando em desacordo com a importância do trabalho de campo no estudo antropológico de comunidades e suas culturas, não posso contudo deixar passar este dramatismo obsessivo de Geertz contra a construção das narrativas antropológicas sobre estas comunidades e culturas.Pois, considero importante a pesquisa bibliográfica de monografias antropológicas para melhor se compreender o objecto de estudo na sua complexidade epistemológica e metodológica. A leitura e estudo das monografias clássicas não devem ser entendidas como um fim em si mesmo, mas como um instrumento que nos possibilita caminhar na procura de outras leituras e de outras interpretações sobre a mesma ou outras comunidades ou povos e nos possibilita alargar a nossa capacidade analítica e interpretativa dos fenómenos sociais.
Para María Cátedra o estudo antropológico centra-se no problema da descrição -, como se representa a realidade social. Assim, para esta antropóloga espanhola, «el enfoque pues, trata de plantear y compreender el proprio proceso de investigación: las bases epistemológicas de las descripciones, la naturaleza del conocimiento y el análisis etnográfico. Finalmente es un ejemplo definitivo de que el silencio sobre la escritura etnográfica se ha roto» (1992: 9-10).
Qualquer estratégia metodológica pretende sempre atingir um conhecimento complexo e objectivo sobre a realidade que se estuda, seja um bairro, uma rua, uma comunidade especifica, ou até mesmo uma cidade. Para a antropologia do espaço ou para a antropologia urbana uma das suas técnicas mais características é o clássico trabalho de campo («fieldwork») a partir do qual se podem construir narrativas de grande complexidade etnográfica. Sobre a importância do trabalho de campo nas pesquisa antropológica, James Clifford num texto intitulado «On Etnhographic Authority» (1988), proclama, a exigência de trabalho de campo é uma reivindicação de autoridade e  legitimidade cientifica para que se deixe de fazer antropologia de gabinete e se produza verdadeiro conhecimento antropológico. É o trabalho de campo prolongado que transforma o antropólogo num especialista sobre o contexto social que estudou. A legitimidade do conhecimento  produzido pelo antropólogo decorre precisamente do facto de «ele ter estado lá». Nesse sentido, o carácter experimental da forma como foi adquirido o conhecimento é o fundamento da autoridade cientifica (Cfr.Ramon Sarró; Antónia Pedroso de Lima, 2006:17 e ss.).
Mas todo o trabalho de campo per si só não nos permite conhecer e construir narrativas ou discursos sobre uma comunidade ou um bairro, é necessário todo um enquadramento teórico especifico da etnografia e da antropologia, a partir da qual elaboramos um discurso narrativo ou metafórico sobre o objecto de estudo. Associado ao trabalho de campo está a observação participante, que nos permite «face to face», interagir com a unidade de terreno (Cfr. Ervin Goffman, 1994).
A necessidade de ir para o terreno, contactar com as pessoas, com as suas mundividências, com a sua vida quotidiana, partilhar os seus medos e aspirações, etc, é uma forma de conhecer e de compreender o objecto de estudo. Neste sentido, para alguns antropólogos o trabalho de campo é constitutivo do próprio processo de produção cientifica da antropologia e não apenas a estratégia metodológica que define a disciplina (Cfr. Ramon Sarró; Antónia Pedrosa de Lima, 2006: 20-21).
Todo o processo de trabalho de campo decorre ao longo da interacção que se estabelece com a unidade de terreno que se vai estudar, por exemplo, uma «Ilha na Cidade do Porto» implica todo um contexto de trabalho, de inquérito, de entrevista, de registo, de recolher informação -, as notas de terreno. A utilização das novas tecnologias de registo como por exemplo a máquina de filmar, a máquina fotográfica, o desenho de estudo, que os alunos de arquitectura utilizam para caracterizar o sitio de estudo, etc. O que escrever e a onde escrever e quando escrever. São preocupações de todo aquele que faz trabalho de campo e se depara com essas dificuldades. A importância da conversação com as pessoas que residem numa «Ilha»; que vai desde o simples «Bom dia...», até à interpelação «Será que podemos...». A capacidade de transgredir, de invadir o espaço do outro, de forma a recolher a informação necessária para a realização do nosso estudo. Que vai desde a rua até à porta de entrada, com o passar da soleira em granito velho para o interior do corredor comprido que dá acesso ao patio central, no fundo é todo um ritual de integração complexo do estranho que se mistura com os moradores dos bairros. Um ritual de aprendizagem, uma espécie de baptismo antropológico no mundo da ciência social aplicada a um contexto de estudo de caso (Case Studies). A ideia de que «não se pode desperdiçar nenhum momento nem nenhum lugar para escrever alguma coisa que nos pareça importante no decorrer da investigação empírica» (Cfr.Sarró; Lima,2006:23).
Assim, segundo Sarró e Lima (2006) fazer trabalho de campo em contextos metropolitanos significa pôr à prova o verdadeiro desafio da antropologia. Todos sabemos, pelo menos desde que começaram as discussões sobre o trabalho de campo at home, que não é a distância geográfica que promove um olhar distanciado e que a proximidade não é sinónimo de conhecimento (Strathern,1987; Pina Cabral,1991; Lima, 1997). Contudo, a  atitude de «estranhamento» e a problematização do real social é algo que todo o antropólogo tem necessariamente de fazer para compreender e conhecer o lugar de estudo.
Néstor García Canclini (1999) considera que a antropologia dispõe de instrumentos qualificados para entender os sistemas cognitivos e valorativos produzidos em contextos urbanos, as relações da sua estrutura actual com a história, da modernidade com as tradições. Ao interessar-se particularmente pela diversidade que contêm as cidades, a pesquisa antropológica permite sair das generalizações homogéneas habituais dos trabalhos sociológicos, económicos e políticos que preferem falar de totalidades compactas, ou reduzem as diferenças aos indicadores dos censos e das entrevistas (cit.Signorelli, 1999: XI). Canclini reforça também a ideia da importância do trabalho de campo, quando afirma que para compreender o homo urbanus é necessário «explorar, en las interacciones ambivalentes de los sujuetos y los grupos, las peripecias de la multiculturalidade. Se necessitan tanto los censos y estadisticas como la observación densa de lo que ocurre en los espacios produtivos, residenciales y de consumo» (Idem:XI). Estamos perante a valorização de uma espécie de empirismo antropológico, amiúdo limitado a descobrir as particularidades do concreto. Se trata de situar  «a los hombres en el espacio y con la conciencia cultural de esa relación».




2.Habitar ali...





As Ilhas são uma espécie de corredores estreitos, compridos, com casas muito pequenas alinhadas em filha de cada um dos lados do corredor. Outras há que se organizam em torno de um pátio comum, a partir do qual se configuram relações fortes de vizinhança e proximidade. Porta sim, porta não, lá estão elas, uma espécie de ninhos ou conchas, que albergam famílias que no seu interior definem trajectos de vida e realizam os seus sonhos e aspirações sociais e culturais. A sua localização na cidade, permite-lhes usufruir de um estatuto de cidadania plena -, de pertença à cidade. Elas são cidade, elas fazem cidade. As ilhas da cidade do Porto inscrevem-se assim num sitio, num lugar com história e memória que se perde no tempo da longa duração da história da cidade. São uma espécie de elemento material e simbólico importante na construção da identidade cultural da cidade do Porto. Mas, elas também foram vitimas da segregação de higienistas e políticos que viam nas ilhas a fonte de todos os pecados urbanos(Cfr Ricardo Jorge,1897, 1899).
Estas Ilhas com a sua toponimia, muitas vezes associada ao seu senhorio ou a algum elemento cultural ou  natural, como por exemplo, a «Ilha da Oliveira», a «Ilha do Poço», a «Ilha da Fama», a «Ilha do Tiço», a «Ilha do Geno», traduzem as suas idiossincrasias tipológicas e culturais. Actualmente, as suas populações são muito diversas e multiculturais, dando a estas tipologias um certo ar de espaços pós-modernos globalizados. Outras, mantêm a sua matriz inicial, com as mesmas populações que aí habitam à mais de três e quatro décadas, algumas inclusive aí já nasceram e casaram e continuam a manter esta relação de residência com os mesmos vizinhos e as mesmas casas. Existem casos, como o da D. Celeste (com 86 anos, natural de Celorico de Basto), que aí criou os seus dois filhos, hoje formados pela Universidade do Porto, e os seus três netos, que sempre vieram brincar para o pátio da sua ilha. Ainda, hoje, um dos seus netos professor no ensino secundário no Concelho de Castelo de Paiva adora visitar a sua avó e dormir na sua ilha como gosta de lhe chamar.

Nota: continua...mas pode ler e consultar entretanto!




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cidade e habitação : para uma antropologia das Ilhas do Porto

Num olhar antropológico sobre as "Ilhas do Porto" registamos de imediato a importância da sua localização e contextualidade urbana, associada a uma plena integração dos seus moradores na cidade do Porto.Mas numa análise mais interpretativa e antropológica destes lugares vamos encontrar um sentimento de pertença e de partilha comunitária, onde todos partilham uma mesma construção identitária urbana, reforçando aí, os seus mecanismos de pertença e de referenciação cultural. Uma espécie de valorização histórica do contexto construído, onde se perpetuam memórias colectivas e trajectos individuais.
A "Ilha" é uma espécie de arca da memória, de pequeno museu onde se guardam de forma operativa vivências, socializações e partilhas. Umas positivas e outras mais negativas, associadas à exiguidade da pequena casa, às poucas condições sanitárias e de infra-estruturas públicas. As positivas revelam um micro-cosmos rico e diversificado de interacções e jogos sociais, entre os mais pequenos ( a"canalha") como gostam de dizer e os mais velhos.
Aqui, lugar e território cruzam-se numa rede complexa de interacções sociais, de vidas e de emoções, uma espécie de reconhecimento do lugar antropológico mais concreto e real.O lugar é uma espécie de pequena plataforma de trajectórias de vidas, onde cada família, cada morador  de acordo com as suas possibilidades e aspirações projecta processos de mobilidade social. Para Anthony Giddens o «termo lugar não pode ser usado em teoria social simplesmente para designar um "ponto no espaço", como tampouco podemos falar de pontos no tempo como uma sucessão de "agoras". O que isso significa é que o conceito de presença -,ou melhor, de mutualidade de presença e ausência - tem de ser explicado em termos tanto da sua espacialidade quanto da sua temporalidade» (1995:95 e ss.).
 Estas tipologias do habitar urbano, que designamos por "Ilhas" estruturam a sua morfologia fisica e social, em função de um conceito de local forte, com referências de grande complexidade ao úso do espaço a fim de fornecer os cenários da interacção, essenciais à sua contextualidade. Estamos perante locais com uma forte acessibilidade de presença, com relações sociais de forte integração social e integração sistémica. Não nos podemos esquecer que estamos perante um local de residência com um corpo ecológico e arquitectónico de grande singularidade, com meios de mobilidade e de comunicação tipicamente urbanos, com relações de apropriação fortes e afectivas ao mundo circundante. Estas condições são fundamentais na construção de uma identidade contrastiva positiva entre este micro-espaço e a grande cidade (Giddens,1997:604). As "Ilhas do Porto" afastam-se de forma radical do conceito e imagem de bairro periférico do subúrbio da cidade canónica. Estes bairros de subúrbio são construções arquitectónicas localizadas em não-lugares, onde as relações sociais são impessoais, frias e distantes. Uma espécie de cidades ao alto, deslocadas e estigmatizadas na forma e na função.
As "Ilhas do Porto" caminham em direcção a um urbanismo social e a uma filosofia que valoriza a urbanidade e a vida na cidade. Por exemplo, Wirth já defendia o urbanismo como modo de vida, isto é, a sua tese suponha por exemplo que o urbanismo era uma forma de existência social de tal forma que para este autor  «las influencias que las ciudades ejercen sobre la vida social del hombre son mayores de lo que indicaría el percentaje de población urbana; pues la ciudad no sólo se está convirtiendo en el lugar de assentamiento y trabajo del hombre moderno, sino que es además el centro que inicia y controla la vida económica, politica y cultural, el centro que ha atraído a las más remotas comunidades del mundo a su órbita..» (1934:342 e ss.).  Wirth (1934) aceita que a densidade da vida social nas cidades possa conduzir a uma formação de pequenos bairros com distintas características -, alguns inclusive podem ainda preservar os traços das pequenas comunidades do espaço rural. Aqui, temos uma afinidade teórica com a realidade antropológica das nossas "Ilhas". Todas elas, sem excepção se estruturam e configuram numa rede de interacções sociais de grande proximidade, típicas das pequenas comunidades rurais. No fundo, são uma espécie de aldeias na cidade pós-moderna (Gonzalo Abril, 1999:207 e ss.).
Manuel Castells sobre a importância da cidade e dos movimentos sociais em prol da mesma,considera por exemplo, que é cada vez mais importante a valorização da cidade em torno da reestruturação dos bairros em função dos seus próprios valores culturais. Aliás, sobre esta realidade socioantropológica das "Ilhas", um dos moradores da Ilha bairro da Bela Vista, sito na rua D. João IV, propriedade da Câmara Municipal do Porto, ao longo da nossa visita à "Ilha" o Luís foi-nos dizendo de forma muito insistente, que «...o mais importante aqui são as pessoas!».

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Ilha do Bairro Herculano - um espaço de Dentro e de Fora na cidade do Porto

A cidade do Porto estrutura a sua malha urbana em torno de um antigo e medieval burgo comercial, situado numa das suas colinas sobranceiras ao rio Douro.A cidade vai lenta e progressivamente organizando intra-muros a sua vida social, politica, económica e religiosa. Ainda hoje, é possível ver um breve e pequeno registo das suas muralhas, um dos símbolos mais poderosos da cidade medieval, mas nada restou das suas imponentes portas e postigos. A cidade estava assim bem delimitada por um dentro e um fora, uma linha fisica e simbólica que integrava ou segregava espaços, vidas e contextos. Era uma espécie de fronteira entre a cidade e o campo, entre o mundo celestial e o mundo profano. Hoje, já não existe esta fronteira fisica entre o dentro e o fora, mas ela existe na forma mais subtil e metafórica. A cidade do Porto cresceu na forma e na extensão, perdeu centralidade e dispersou-se por entre campos e bosques.O seu território expandiu-se e chegou até outros contextos urbanos, congregou dentro si diferenças e singularidades, identidades e culturas. A que vulgarmente chamamos de Grande Porto.

A cidade manteve contudo as suas características únicas, quer pela individualidade da sua morfologia e geologia, quer também pela sua singularidade da sua imagem de cidade e burgo medieval altaneiro a um rio a que chamam de Douro.





Mas são os bairros e as ilhas que mais caracterizam a cidade do Porto, com os seus espaços, as suas cenografias pitorescas, as suas festividades, os seus ritos e simbolos. Definem a sua história e os seus percursos evolutivos. A partir daqui configura-se a cidade, o espaço e a sua espacialidade urbana.Vão-nos informando sobre o que é o espaço público, o espaço privado e também o que é o habitar.


Mas estas formas de ocupação urbana, tão distintivas e singulares da cidade do Porto estão a perder-se. A Câmara Municipal do Porto não lhe atribui valor e interesse patrimonial, continua a olhar para estes tipologias com os olhares higienistas do século XIX e XX. A partir desta perspectiva a Câmara Municipal do Porto tem desenvolvido um programa agressivo e anti-social de erradicação das Ilhas e dos antigos bairros da cidade, deslocando pessoas, destruindo espaços sociais, mutilando identidades e vizinhanças. Esvaziando a cidade de pessoas, de ritos e culturas urbans. É toda uma mundividência que se aniquila sem precedentes na cidade invicta. Um atentado às classes pobres e vulneráveis da cidade, mas também contra aqueles que fizeram os seus trajectos de vida e por opção escolheram continuar a viver e a habitar na sua ilha como gostam de frisar independentemente da sua condição social actual.


É no interior destas Ilhas da cidade (umas públicas e outras privadas), uma espécie de bairros populares com origens no século XIX e inicios do XX que encontramos os melhores modelos do que é habitar e do que é a vivência de um espaço público complexo e interactivo.


A Ilha do Bairro Herculano localiza-se na rua Alexandre Herculano e rua das Fontainhas, em terrenos das antigas Quintas de S. Lázaro e dos Matadouros, numa zona marcada por referências urbanas muito fortes e típicas da cidade canónica, como por exemplo a Avenida Rodrigues de Freitas, Rua do Sol e Praça da Batalha, o Largo de S. Lazaro.


Trata-se de uma zona residencial privilegiada, pois possui uma boa orientação solar e uma boa localização no centro da cidade do Porto. As habitações existentes pertenciam a uma burguesia endinheirada, que foi construir nos finais do século XIX os seus palacetes e casarões. Era uma zona propensa a ser um centro de finanças e de negócios, onde aliás já se tinham instalado algumas fábricas. Uma zona com terrenos disponíveis e acessíveis.


Estas razões é que determinam a localização da ILHA - Bairro do Herculano, bem como determinam a sua configuração e a sua tipologia. O bairro está escondido por de traz dos logradouros de todas aquelas casas que formavam o quarteirão. Os limites do bairro são logradouros, paredes traseiras de habitações, paredes traseiras de edificios de escritórios, terrenos abandonados e fábricas. Mas apesar destes entraves à boa vivência, os moradores gostam de la viverem e de certa forma sentem-se protegidos da cidade, isto é, da confusão daquele local, agora transformado em zona de união Porto-Gaia.


O Bairro/Ilha possui uma planta em malha ortogonal reticulada, tendo uma rua maior, a rua principal que faz a junção da parte central do bairro e a sua organização. Desfruta de duas entradas, uma para cada uma das ruas (Herculano e Fontainhas).Tem ainda uma rua de escape diagonal à semelhança de cidades como Espinho.


As casinhas estão organizadas consoante os arruamentos, formando fileiras de casas de um ou dois andares. Todas elas estão habitadas à excepção de duas, uma está abandonada e a outra está à venda. As casas de banho são colectivas, pois as habitações aquando da sua construção não foram pensadas a ter quarto de banho, apesar de agora assistirmos a uma requalificação e a mudanças de organização das habitações no âmbito de garantir melhores condições de habitabilidade (higiene e conforto).


A ILHA do Bairro Herculano é diferente de todos os outros espaços aos quais chamamos de bairro. Tem vida própria, funciona como uma Ilha. Tem condições de higiene e de conforto. Possui boas relações sociais, uma vizinhança activa e dinâmica culturalmente.


Quando questionados, os moradores dizem estar satisfeitos com a vizinhança, com a água e com a cidade.Apenas não gostam do valor da renda, que por mais estranho que pareça é de apenas três euros mensais.


Este bairro organiza-se dentro de uma espécie de muro ou muralha que o individualiza do mundo exterior,isto é, da malha da cidade. Um microcosmos dentro de um universo urbano mais complexo e denso, com os seus limites e fronteiras. Aqui o olhar centra-se no dentro e fora da Ilha. Estamos perante um ritual simbólico de passagem, de mediação entre o mundo interior e o mundo exterior.O Bairro Herculano está fechado sobre si mesmo, logo torna-se um espaço de fechamento e identidade positiva face ao mundo exterior. Mas, quando se entra no Bairro, reparamos que aquelas ruelas de um metro e meio de largura são espaços abertos ("públicos") onde todos podem andar e desfrutar. Os moradores do bairro / ilha não fazem comentários acerca da "gente nova" que por aí circula. Este fenómeno evita a guetização destes moradores, e integra-os de pleno direito na cidade, na sua cidade. Não sofrem das consequências da deslocalização urbana e da fragmentação.


Mas sentimos, estar a entrar dentro de casa de alguém que está a ver a novela da hora de almoço. As portas estão abertas, os vasos de flores estão cá fora, os gatos andam à solta. Aquele bairro é como se fosse uma só casa, uma "Casa Grande" para centenas de pessoas, desde crianças a velhos. A isto deve-se o facto de lá viverem familias inteiras, desde os avós aos netos. Os moradores nascem, crescem e desejam morrer no seu bairro, na sua ilha; conhecem-se e confiam umas nas outras, uma espécie de topofilia ao lugar de residência. Afirmam de forma segura e agressiva «...daqui só para o cemitério...».


Mas dentro de um espaço tão pequeno encontramos ainda microespaços, como são os casos de largos, partes de ruas, pedaços de jardim.


Dentro destes espaços realçamos o único largo pertencente ao bairro. Situa-se no final da quinta rua, isto é, perpendicular à rua principal. É um espaço exíguo, com cerca de oito metros quadrados. Está limitado por um alçado principal de uma habitação, por um alçado traseiro de outra e pela rua e uma parede de uma fábrica. Fica no canto do bairro. Os seus acessos são «duvidosos», pois existe a rua que ao fazer a aproximação com o bairro torna-se estreita. Existe ainda outro acesso também ele rudimentar feito entre umas casas de banho antigas, já abandonadas e o alçado lateral de habitação que está virada de traseiras.


O largo não é muito frequentado, apenas serve de alpendre à habitação que se apropriou dele. As antigas casas de banho são agora uma espécie arrumos de tralhas, aí também foi acrescentada uma soleira onde estão colocados vasos de plantas e é utilizada como banco para se sentarem nas tardes e noites de calor.


Apesar de ser minúsculo o largo assume o seu mix durante os festejos de São João na Ilha bairro Herculano. Serve assim de local de encontro da família, dos amigos e vizinhos onde se faz uma sardinhada, uma espécie de mesa colectiva, onde a partilha e a amizade se configuram neste topos festivo (Dies Festa). Em dias de São João o cheiro a sardinha percorre todas aquelas esquininhas, todas as casas com a sua mesa e o seu assador, os jovens jogam às cartas no meio da rua principal, as ruas todas enfeitadas com fitas e balões, e a musica do bairro. Aqui sim, a festa e a alegria transbordam de casa em casa, de morador em morador, de pessoa para pessoa. Os putos correm pelas ruas interiores, jogam às caçadinhas e gritam e gritam uns pelos outros, todos se conhecem e todos se chamam pelo seu nome. A cascata de S.João a competição entre as Ilhas pela decoração mais «linda da nossa rua. Aqui não há registos de anónimo, de estranho, de inseguro, todo um mundo social afectivo e seguro de trocas sociais. A pobreza, porque ela também mora aqui, não os impede de viver, de conviver uns com os outros. Dizem-nos, com um brilho nos olhos de um orgulho demasiadamente humano que nos toca fundo «...Nós Aqui!..Somos uma família!».