segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Cidade POST IT - da reabilitação à renovação urbana

           O problema da cidade do Porto está inteiramente associado ao modelo de planeamento que se tem aplicado na nossa área metropolitana, e que assentou numa excessiva e caótica especulação urbana, associado a processos espontâneos de ocupação do espaço nas zonas periféricas ao centro densificado da cidade, bem como o aparecimento de bairros de habitação social que concentraram populações deslocadas dos seus locais de residência; potenciando uma consequente expansão dos subúrbios, espaços urbanos de baixa densidade e qualidade urbanística e arquitectónica, associados a territórios de elevada exclusão social e cultural.
Este fenómeno de desconcentração da cidade do Porto, em beneficio de uma crescente periferia emergente, conduziu a cidade e a sua área metropolitana (AMP) para uma espécie de cidade difusa, fragmentada e deslocada; com resultados negativos na mobilidade e nas acessibilidades dentro e fora da cidade do Porto. Crescem as cidades dormitório, sem regra e sem lei, numa lógica de puro mercantilismo imobiliário, associadas a interesses que cortam transversalmente os poderes políticos, económicos e financeiros.
Perante uma cidade cada vez mais sombria e desolada, em termos arquitectónicos e ambientais, as intervenções de politica urbana são de sentido pontual e cosmético, limitam-se a simples programas mais ou menos especulativos, dando origem a intervenções arquitectónicas de duvidosa qualidade e de necessidade urbana por justificar. São vários os exemplos, que vão desde a intervenção no Jardim da Cordoaria, Praça Gomes Teixeira, Praça da Batalha, Praça de Lisboa/Clérigos, Teatro Rivoli, Avenida da Boavista, Ribeira, etc. Os problemas urbanos e sociais de fundo continuam por resolver e não se vislumbra nenhuma politica dura e sustentável por parte das entidades locais, metropolitanas e mesmo nacionais.
A reabilitação urbana resume-se a um conjunto de práticas urbanísticas e arquitectónicas, que favorecem a construção de grandes densidades, alterando escalas, formas arquitectónicas e modos de habitar, e desta forma fortemente especulativo e a médio prazo insustentável na forma e na função. O Porto continua velho, deprimido, periférico e abandonado. Paradoxalmente, assistimos a uma espécie de privatização da cidade em função de um urbanismo especulativo, que vê na reabilitação urbana um instrumento eficiente ao serviço de uma crsecente especulação imobiliária, fundamentada nos pressupostos de uma arquitectura fortaleza e da enfâse da segurança. A privatização do espaço urbano n a cidade do Porto, dá origem ao aparecimento de «enclaves», uma espécie de parques temáticos (condomínios fechados - classe A) que se caracterizam pela arrogância, pela intimidação, uma espécie de novo apartheid urbano; noutros casos, estes «enclaves» traduzem-se na construção da cidade castelo, fechada e enclausurada sobre si mesma. No fundo, um conjunto de práticas urbanísticas e arquitecturais que favorecem a multiplicação de grandes complexos, que concentram tipologias monofuncionais, exclusivamente comerciais, residenciais, educativas; privilegiando a monofuncionalidade, o zonamento económico em detrimento da multifuncionalidade, da complexidade e da heterotopia urbana.
Este fenómeno tem conduzido a cidade para uma espécie de cidade-objecto, de cidade-colagem, em claro detrimento da cidade dos homens. Uma cidade-colagem que faz da a apologia da reabilitação urbana a partir de planos grandiosos, baseados no zonamento («zonning») monofuncional gerador de colagens de espaços e misturas altamente diferenciadoras; a partir de uma lógica de excessiva especialização das tipologias e modelos, conduzindo à banalidade dos lugares, à uniformidade arquitectural e à insustentabilidade das paisagens urbanas. Tudo isto, em detrimento da renovação urbana que faz da apologia da complexidade da vida urbana, esta sim, baseada num desenho da cidade assente em princípios de sustentabilidade ecológica, económica e  social.
É a afirmação da cidade dos três "C" - uma cidade que tem como valores a complexidade, a compacticidade  e a coesão social.
Este fenómeno de associar reabilitação e especulação imobiliária, foi e é muito comum nas grandes cidades europeias; por exemplo, a renovação da área de Docklands em Londres, insere-se neste processo de reciclagem urbana, através da renovação de edifícios em bairros degradados que se destinam ao uso de grupos com muito poder económico-financeiro e politico.Estamos perante, pessoas individuais ou colectivas das classes mais altas ou grupos económicos poderosos, isto é, delimitam-se zonas de reabilitação urbana sem resolver os problemas de fundo da cidade, como por exemplo, a renovação e requalificação dos tecidos sociais, económicos e culturais da cidade.
O mesmo se passa na AMP, ver por exemplo, a intervenção na frente ribeirinha de Gaia, com a aplicação do seu MasterPlan, instrumento para a renovação e reabilitação desse casco antigo.
Uma resposta política que deveria ser firme, perante este grave de envelhecimento da cidade, e contudo o poder político limita-se a reabilitar, a repintar ou a limpar fachadas, como se a recuperação da cenografia urbana fosse a única coisa que se pode fazer pela nossa cidade. Ver por exemplo, as sucessivas intervenções na frente ribeirinha da cidade do Porto, aquando da programação da Porto 2001.
Deslocam-se ou deportam-se antigos moradores da Ribeira para os caixotes em altura do Lagarteiro e do Aleixo, agravando situações e potenciando conflitos urbanos nas zonas periféricas. Pressionam-se os moradores do Bairro do Leal (Santo Ildefonso), do Bairro da Corujeira (Campanhã, actualmente demolido pela CMP), demolindo casas, criando situações de ruptura e de insegurança urbana, em nome da reabilitação urbana da cidade. Propoêm-se programas absurdos de reabilitação para o Mercado do Bolhão, como se se tratasse de uma politica integrada de renovação da cidade, através da valorização e da qualificação do património arquitectónico e dos usos e funções socio-económicas da sua matriz original.
No fundo, estamos perante, uma politica que assassina a memória, a identidade e a cultura urbana portuense, em beneficio de uma cidade de postiços e de falsas fachadas.


Nota: Este artigo foi publicado no Jornal Público, 2006.

A Cidade Vazia. Privatização da cidade e urbanismo diferenciador


                                                                           



     






 "o vazio é a carência de objectos, é um vazio que representa a forma de encontro com o ser, com a identidade..."
 (Teresa del Valle,1999)




         A diferenciação espacial é infelizmente uma realidade progressista e avassaladora que juntamente com os seus pólos assimétricos e opostos, muito têm contribuído para um aumento da territorialização social da cidade e área metropolitana, provocando situações de tensão e e de conflito entre aqueles que vivem e habitam a cidade e nas cidades emergentes da região norte. As políticas urbanas contribuem também para este aumento de territorialização social da cidade das áreas urbanas periféricas ao Porto, provocando situações de tensão e de conflito entre aqueles que vivem e habitam a cidade. As políticas urbanas contribuem também para este aumento de territorialização social da cidade, a partir de um urbanismo que assenta na programação e valorização da privatização e deslocalização do espaço urbano. Este fenómeno adquiriu formas ostensivas de exclusão urbana e social.
De um lado, temos o aparecimento de alguns guetos, enclaves sem qualquer infra-estruturação e sem qualquer mais valia social, uma espécie de redutos sociais sem alma nem cor, são uma terra de ninguém, um lugar sem limites nem fronteiras físicas, a não ser a imposição das fronteiras da exclusão social e urbana.
Este tipo de espaços de habitar, proliferam de forma anónima por toda a cidade, são uma espécie de ilhéus perdidos neste grande oceano que é o Grande Porto. No fundo são também um pedaço de cidade sem direito à história, sem direito a uma memória e sem nenhuma identidade.
Aqui não existem políticas municipais nem regionais que valorizem a cidade relacional em função de uma convivialidade estruturante e estruturadora do indivíduo no contexto de um ambiente urbano que se quer inclusivo.
A cidade organiza-se e estrutura-se em função de estratégias de promoção e de promessas de segurança / securitização, associadas a formas de socialização balizadas e organizadas num ambiente sociológicamente controlado. A cidade transforma-se, numa máquina ao serviço da exclusão urbana e social, abandonando a sua premissa fundadora de espaço inclusivo e modernizante. Favorecendo, assim, o aparecimento de identidades negativas ao serviço de uma lógica especulativa, de mercado globalizado dos terrenos da cidade.
Estamos perante um urbanismo introvertido, que facilita as interacções à distância, que promove de forma exponencial a comunitarização e a privatização da vida urbana, com a proliferação de condomínios fechados, associado ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação, à evolução das lógicas residenciais, à multiplicação de complexos que concentram um quadro vertical de funções urbanas. Por exemplo, temos o aparecimento de centros comerciais, parques temáticos, as cidades temáticas, os MacDonalds, os Shoppings, a patrimonialização dos antigos cascos das cidades.
A cidade vazia no fundo dá-nos a conhecer a crise da cidade, que também é a crise  do cinema, do teatro, do comércio de rua, do envelhecimento das pessoas e dos seus cascos urbanos e respectivo edificado.
Encontramo-nos, perante, o abandono da cidade, o despovoamento da cidade e de uma grande parte da vida social dela, mas também assistimos a uma recuperação de uma certa vida urbana, mais nocturna e boémia, mais cosmopolita e global, com o aparecimento de novos cafés, bares, restaurantes e espaços de cultura, arte e musica. A cidade vazia patrocinou um ecologismo de programação cultural urbana nos antigos edifícios e centros comerciais, com a sua reutilização para outras actividades e performances urbanas. Numa lógica de sustentabilidade económica de escassos recursos, com o aparecimento de grupos de contra-cultura, em centros comerciais como o do STOP e do DALLAS. Paralelamente, os espaços mais emblemáticos da cidade de outrora, como o Café Majestic, o Guarani, o Piolho, ganham nova vitalidade e ocupam um espaço mais de representação e de ritualização cultural da cidade portuense.
Multidões de jovens (estudantes acima de tudo), deslocam-se para a baixa da cidade, à procura de espaços alternativos à cidade periférica do centro histórico e das instituições canónicas da invicta (como por exemplo, O Teatro de S. João; a Casa da Musica; o Museu de Serralves; etc.).
Mas a cidade é cada vez menos um espaço público complexo e heterogéneo, que valorize as comunidades de pertença, as políticas urbanas integradoras de uma sociedade inter-classicista, mais plural e onde a coesão social sejam a causa primeira do fazer cidade.
Mas assistimos, ainda a uma grande erosão do espaço urbano, consequência de um urbanismo especulativo, desorganizado e fragmentado que renunciou à grande ambição da cidade para todos, protagonista de uma cidade cosmopolita e solidária.  

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Cidade de Amarante. Uma espécie de liturgia à saudade e à memória

Escrever sobre a cidade dos meus antepassados é um desafio estimulante, mas também uma responsabilidade. Desde muito pequeno que convivi com a cidade, com o seu património, com as suas gentes, com as suas estórias e seus actos fundacionais. As suas memórias corriam entre momentos de entretenimento e de fantasia onde minha avó Deolinda de Almeida Matos (1919-2005), uma espécie de matriarca familiar contava e recontava de uma forma apaixonada as estórias fantásticas e maravilhosas da sua cidade natal. Uma espécie de liturgia à memória e à saudade. Ficou-me como lição a importância da memória como uma espécie de gramática cultural que nos permite entender e imaginar o mundo. Devolvendo aos homens esse sentido cósmico e telúrico que o escritor Teixeira de Pascoaes, materializou em palavras e sentimentos no seu Livro Memórias (2001).
Todo um reino fantástico que me envolvia e me dava a conhecer uma terra onde não nasci, mas à qual me ligava uma espécie de fio original. Era uma civilização inteira feita por homens cultos, santos, estadistas, escritores, artistas plásticos, empresários, operários, entre um povo simples de homens e munlheres que faziam do seu viver quotidiano uma epopeia progressista e modernizante.
Uma cidade que fazia da sua paisagem, da sua arquitectura, do seu espaço público, do seu heroísmo uma lição progressista e moderna, sem recusar  o seu passado como um estimulante necessário para a invocação e transformação sociocultural. Onde aristocracia rimava com filantropia, amor às artes e às ciências, e onde as suas elites dialogavam de forma contemporânea com os saberes e as artes de uma europa moderna e cosmopolita.
A cidade de Amarante configura-se e estrutura-se, também em função de uma rio, de uma paisagem, de uma estrada real, que antes de ser real já era eixo viário por onde circularam  povos e civilizações muito antigas. Integrada neste contexto eco-topológico de forte singularidade, a cidade gatinha pelas colinas, agarrando-se ali, descansando acolá, desenhando neste palimpsesto de matriz medieval, palácios e ruas, becos e casebres, cercas e mosteiros, hortas e pomares, fontes e jardins, passeios públicos e varandas, igrejas e capelas, calvários e romarias. Espraiando-se ao longo deste dorso ecológico, saltando de margem e deslizando pelas suas cotas baixas a cidade vai desenhando ruas e fachadas, construindo pontes e praças, modos de vida  ritualizando o espaço quotidiano transforma-o em lugar de celebração e de invocação.
A cidade de Amarante é assim feita de memória, de mandato e de história, mas sem nunca abdicar daquele seu impulso modernizante que tanto o nosso país e a região necessitava e para o qual tanto contribuiu com força, raça e engenho.


Nota: Este texto foi publicado no Reporter do Marão, 2009

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Conceptualização do Espaço e Ordenamento Artístico na Cidade do Porto

Segundo Peter Brook a coisa mais importante não é o espaço em sentido teórico, mas sim o espaço enquanto instrumento. Estamos perante uma problematização do espaço e da obra de arte,isto é, qual a relação existente entre espaço da obra e espaço na obra. Claro que o primeiro está sempre em função do segundo, mas também é normal que o espaço da obra desempenhe um papel muito importante em todo o processo da sua percepção e da sua interpretação. Sem esquecermos o carácter neutral e transparente  do espaço em si mesmo.
No espaço da obra todo o processo semântico é vitima da ilusão que esta produz, uma espécie de espaço representado nas obras, especialmente nas obras realistas. Aqui, o espaço que nos ensina não é o espaço da sua produção, mas sim, um espaço fictício, isto é, um espaço pré-existente. O criativo/artista fabrica um espaço, um espaço representado que nunca, em nenhum lugar à existido antes que o artista o tenha fabricado. Considera-se, que estamos perante um espaço como produção e não como reprodução ou simples imitação. A teoria da mimesis de que não há outro espaço para além daquele que é representado. Mas no entanto, estamos perante um espaço produzido que funciona dentro do mundo do mundo visual, isto é, apresenta-se como realidade em si.
A obra de arte utiliza na fabricação de uma realidade artística um número infinito de suportes e materiais, que  vão desde o cartão, a tela, acetatos, plásticos, lixo, etc. Esta atitude conceptual insere-se numa espécie de contracorrente, que faz a apologia da liberdade de expressão e de informação, utilizando novas tecnologias e técnicas próprias de uma contra-cultura. Aqui, a manipulação vai estabelecendo relações mais activas entre o produtor, espectador e o coleccionador.
Estamos, perante, a mercantilização de toda a obra de arte, onde criadores pretendem chegar a públicos mais abrangentes, utilizando assim, meios de produção e de difusão mais interactivos e comunicativos.
Onde produtores e destinatários, criadores visuais e profissionais, relacionados com a comunicação desenvolvem uma actividade mais consequente de forma a chegar a um público mais amplo, recusando a obra de arte, como fruição exclusivamente de um público "expert". Esta nova realidade, está também relacionada com a dita socialização do conhecimento e com uma maior promoção da arte no contexto da sociedade e da cultura massificada. Com a criação e divulgação de novos espaços de fruição cultural e artística, como por exemplo, o caso da Rua Miguel Bombarda na Cidade do Porto; bem como as iniciativas do Museu de Serralves, com party artísticas gratuitas, durante várias horas seguidas para a população da cidade e da região norte. Um acontecimento popular, mediático, massificado e interaccionista.
Onde se apresentam produtos alternativos que vão desde os grafites murais, land arte, musica, instalação, seminários, oficinas, bancas para a venda de produtos alternativos, cenas interactivas com teatro ao ar livre, e a possibilidade de o público poder interagir com os actores em contexto de espaço exterior. Abandonando-se, deste modo os canais mais elitistas, a partir dos quais é normal se desenvolverem os chamados ciclos de produção, circulação e consumo artístico.
Mas, qual é a relação entre estes espaços de divulgação, mais populares e públicos e os centros de experimentação artística. Estaremos, perante a morte destes espaços? Ou somente, perante a sua transformação e respectiva massificação?
Na Cidade do Porto, têm aparecido um conjunto de espaços culturais que para além de promover a criação artística, também colaboram na formação dos novos públicos. Ao longo, destes últimos anos, a Cooperativa Árvore, a antiga Escola de Belas Artes do Porto, a Escola Superior Artística do Porto, a Escola Soares dos Réis, e actualmente com a criação de novos museus e novos centro educativos, dos quais destacamos o Museu de Serralves e a Casa da Musica, contribuem para o fomento de novas experiências no ensino e na divulgação das artes visuais e musicais, e artes performativas e expressivas. 
A cidade já está afastada dos tempos em que a cultura e a arte se fabricavam em Agrupamentos de Vizinhos, de Associações de Moradores, ou espaços alternativos de vanguarda. Hoje, a cidade organiza a sua actividade artística e cultural em função de uma agenda mais complexa e socialmente mais abrangente.Promovendo-se exposições, editando-se obras escritas e ou de multimedia, de actores locais e globais. Promovendo projectos culturais próprios, mas articulando-os com campanhas educativas, muitas vezes inseridas em projectos de inclusão social, como por exemplo, a luta contra a exclusão ou da pobreza, sida, etc.
Estes projectos contribuem também para a mobilização social, configurando uma cultura emergente com novos públicos e novos produtores. Recuperando e reivindicando uma nova atitude artística e interventiva na cidade, na história da cidade e mobilizando-se para novas causas e novos horizontes sociais e estéticos. De realçar os movimentos alternativos da cidade, onde grupos de jovens talentos foram ocupando espaços abandonados pelo comercio em alguns centros comerciais e aí desenvolveram espaços de criação e de fabricação contracorrentes às instituições mais canónicas da cidade.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

The Tactile Eye

O Espaço não é um dado a priori, mas um produto construído. Neste sentido, também não é um elemento neutro, pois, ele encontra-se sempre associado a uma realidade social, política e simbólica. O espaço não se pode representar como um continente vazio. O espaço não é abstrato, faz-se abstrato, no sentido em que ele sendo também uma obra do homem, ele contém uma sintaxis, uma semãntica e uma pragmática. Como diria greimas espaço enquanto forma e extensão enquanto substância.
A sociedade actual vive nesta emergência estética e ideológica, onde a cidade e a arquitectura se transformam rapidamente numa coisificação desmaterializada de tempo e espaço.Uma espécie de dilema filosófico, que condena o homem pós-moderno a um retorno á caverna. Que se traduz na actualidade numa espécie de vida artificial e virtual.
 Estaremos perante a substituição da ideologia do plano, tipica do movimento moderno, por uma outra que se pode classificar de forma grosseira de ideologia da diversidade das identidades locais, em que os conflitos são escamoteados por uma espécie de estetização do heterógeneo, encoberto pela transformação da superficie desencantada ( segundo a ideia que Weber dava a esta dimensão chave do mundo) das nossas cidades em cenários comandados pela lógica da fascinação ao serviço do deslumbramento, irmanados por uma sociabilidade que há muito tempo deixou de existir em virtude justamente desse traço desertificante da modernização. O lugar urbano foi aos poucos convertendo-se no seu oposto, o não-lugar dos espaços virtuais de uma vida pública definitivamente transformada num reportório de representações simbólicas (Augé, 1994).
Robert Venturi, propunha uma arquitectura da comunicação e não uma arquitectura do espaço. Criticando desta forma a obsessão dos seus colegas pela adopção de soluções urbanísticas tradicionais, como as praças com os seus genius loci, defendendo por sua vez, a generalização do modelo das ruas comerciais cheias de anúncios luminosos, bem como a valorização de uma arquitectura impura, simbólica, de comunicação vigorosa e imediata que podesse recorrer a símbca´rolos e a sinalizações de fácil descodificação.
Ao contrário da arquitectura moderna expressiva pela forma, ele já assumia de modo muito explicito a transformação da arquitectura em arte de massas, como uma forma-mercadoria na sua dimensão apoteótica de forma-publicitária.
Todavia, é com a chamada 3ª Geração Moderna, na qual se destacam alguns arquitectos portugueses, da cidade do Porto, Fernando Távora, Siza Vieira, Eduardo Souto Moura e mais tarde com uma nova geração de arquitectos formados nas Escolas de Arquitectura da cidade do Porto (Escola Superior Artística do Porto e Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) , como João Carreira, João Álvaro Rocha, Jorge Patricio Martins, Fátima Fernandes, Mendes Ribeiro, que se rejeitam os formalismos e os maneirismos do estilo internacional, excessivamente redutores na forma e na estrutura. Sem se caír em tentações de classificação ou tipificações redutoras de estilos, quase que poderíamos afirmar que existe aqui, uma nova forma de olhar para o tempo e para a história, para com a realidade e a cultura portuguesa. 
Neste contexto, Montaner (2001:152-3) considera que as formas contidas e minimalistas de grande parte da obra de Tadao Ando, Eduardo Souto Moura, Jacques Herzog/Pierre de Meuron, Francesco Venezia, Antonio Monestiroli ou de Paulo Mendes da Rocha, apresentam como valor máximo a sua materialidade e a sua extrema unidade, com a renuncia ao secundário para outorgar maior intensidade às ideias básicas à presença e textura das geometrias simples, numa arquitectura de gande qualidade, produzida somente em circunstancias muito especificas. Por outro lado, considera ainda este autor que as propostas urbanas de Rem    
Koolhaas ou  Toyo Ito também recorrem às transparências, superposição de imagens e densidade de referências que os meios de expressão mediáticos mais vanguardistas geraram.
Estamos perante uma nova versão da vida e do viver urbano, caracterizada por um retorno do individuo ao interior da vida doméstica, onde a televisão nos aparece como o único meio de contacto com o mundo exterior, acrescido evidentemente do automóvel e da net. Uma espécie de capsula sobre rodas ou bites, dirigida por um computador. De um lado, a casa e do outro, as strip das ruas de comércio às grandes auto-estradas, onde a velocidade se cruza com os seus out-doors, placas ou sinalética indicativa em geral de lugares e produtos de consumo.
Entre o micro-espaço da sala e o hiper-espaço das grandes auto-estradas a diferença seria apenas de escala, e de suporte, pois em ambos os casos não se trataria exactamente de lugares de estar, mas de lugares de circular. A aceleração do tempo na sociedade pós-contemporânea, levou David Harvey (1999:263) a considerar que vivemos num tempo e num espaço comprimidos, dominados pela alta tecnologia, que fabricou o triunfo do efeito sobre a causa, da instantaneidade sobre a profundidade do tempo; o triunfo da superfície e da pura objectivação sobre a profundidade do desejo.
A cidade ocidental apresenta-se também em função de dois pólos muito fortes, o da reprodução e o da produção. O primeiro tem como eixo simbólico o espaço doméstico, o segundo abarcaria todo o resto - onde é costume encontrarem-se os lugares de maior visibilidade, de reconhecimento e prestigio. Vincular a cidade com a arquitectura e com a arte em geral (pintura, escultura, arte da instalação) é preenche-la de formas, de cores, de texturas, que a enriquecem.
Na realidade, arquitectura, arte e cidade complementam-se e a arquitectura e a arte devem estar tão incorporadas como está por exemplo o mobiliário urbano na cidade. Mas, não devem ser entendidas como algo acidental ou orgânico, no caso da arquitectura; ou como algo adicional e complementar no caso da arte. Mas enquanto símbolos, signos, conceptualizações estéticas e ideológicas de uma cultura que está presente na percepção de toda a cidade enquanto comunidade de experienciação histórica (Trías, 1983).   

Cyber Cities - processo de desurbanização da cidade

O espaço urbano da cidade actual ultrapassa os limites próprios de um lugar concreto, histórico, físico, para estabelecer relações de ambiguidade e de subjectividade social na relação entre as novas escalas de habitar o espaço pós-contemporâneo.
Estas novas relações configuram-se em função da nova relação entre o local e o global. Ainda, numa leitura mais ou menos clássica, Teresa del Valle, caracteriza-nos a cidade ainda como um lugar habitado por uma variedade de gente, com interesses e aspirações distintas, onde é ainda, possível, existir um lugar para habitar, viver e morrer. A cidade para esta antropóloga é principalmente o lugar do quotidiano onde se vive o dia a dia em relação ao trabalho, ao ócio, há violência, ao sexo, às relações sociais, e ao amor (del Valle, 1997:15 e ss.).  
Mas, com a descoberta e a manipulação dos modernos mass media, as sociedades ocidentalizadas foram empurradas para uma espécie de ditadura hedonista da imagem, da manipulação excessiva da informação, do videoclip, do jogo virtual, que não é mais do que uma prótese perversa do lúdico e da interacção social, próprias de uma sociedade que vive entre o tédio individual e o descentramento coléctivo.
A cidade transformou-se gradualmente na europa, e rapidamente no continente americano e asiático em metamorfose da esfera pública neste capitalismo globalizado.
Os espaços públicos integram-se em contextos e compromissos de acordo com a homogeneização capitalista desde as fases tayloristas e fordistas até à nova ordem soft deste capitalismo global.
A participação das classes sociais, sim classes sociais, cedeu o lugar a uma espécie de teleparticipação, própria de um espectador passivo, virtual, prisioneiro do conforto e ao serviço de uma sociedade virtual deslocalizada das suas funções sociais. Como diria Virilio, unidade de lugar sem unidade de tempo, isto é, a cidade desaparece na heterogeneidade do regime da temporalidade das tecnologias avançadas (Virilio, 1993).
Para este autor, a cidade estaria desta forma a sofrer um processo de desurbanização progressiva, o que nos levaria a falar de pós-arquitectura, pós-urbanismo ou de uma pós-urbanidade para designar esta fase de perda de unidade espaçio-temporal, isto é, em nome de um tempo-espaço sintético e virtual.
Noutra dimensão, David Harvey e alguns teóricos regulacionistas, consideram que estamos a viver uma compressão do espaço-tempo, resultante  de uma nova fase do capitalismo, de aceleração do tempo das trocas comerciais, daí a sua instantaneidade e descartabilidade, ou seja, o carácter efémero da cidade flexível e fragmentária. 
Aliás, a este carácter volátil e soft da cidade actual, corresponderia uma economia pós-fordista de acumulação também flexível, a do capitalismo desorganizado e globalizado. Não é por acaso, que Teyssot proclama que a imagem da cidade aparece-nos como uma metrópole posta em representação, uma espécie de mise en scéne de racionalidades proliferantes, arquétipo da desterritorialização, da dessimbolização, da errância e do delírio esquizoide.  
O caos transforma-se num conceito chave onde os objectos aleatórios da paisagem prenunciam a cidade electrónica, onde a circulação de imagens com a leveza da forma-mercadoria, abandonam de vez qualquer ligação com o mundo concreto da produção. Estamos, perante a proliferação de signos auto-referentes, o tão decantado mundo do simulacro.
Assistimos, a uma mudança para muitos radical na experiência do espaço público e doméstico. Onde a velocidade dos meios de locomoção e os recursos electrónicos alteraram de vez os modos de percepção espacio-temporal, e produziram transformações no limite da própria inserção do individuo na realidade da vida pública e doméstica.
O espaço urbano, entendido como lugar de memória e de tempo, carregado de sentidos simbólicos, isto é, como algo capaz de propiciar o reencontro com acontecimentos coléctivos  memoriais, e per si, causa próxima de modo a reactivar uma sociabilidade perdida, dilui-se ao longo destes dois séculos de excessiva racionalidade e modernização, dando origem às cidades temáticas e zonificadas, monofuncionais e hiper-especializadas.
No interior deste movimento urbano, próprio de uma sociedade pós-contemporâneo, assiste-se também    à valorização de um urbanismo de miniatura, anárquico, próprio da cidade caótica, plural e fragmentária.  

domingo, 14 de novembro de 2010

Porto. Pensar a Cidade

A discussão sobre a cidade, o planeamento e a requalificação urbana na Área Metropolitana do Porto tem sido realizada e aprofundada dentro dos gabinetes de políticos, de técnicos e de especuladores. Mas raramente é objecto de discussão de forma a reforçar e a valorizar a cidadania daqueles que vivem e trabalham nesta área urbana. Teve, como é do conhecimento de todos, com a Capital da Cultura PORTO 2001, uma excelente oportunidade de meios materiais e humanos para o fazer. Mas realmente, nessa matéria foi uma acção frouxa e medíocre sem sentido social e cultural de cidadania aberta e plural. A programação e os seus respectivos programadores fecharam-se nas suas pequenas torres de marfim e arrogantemente decidiram por todos em nome de uns poucos que olham para a cidade como um pequeno território onde se acantonaram grupos e interesses.
Estas intervenções não foram programadas de forma a potenciar uma maior participação dos cidadãos na vida e gestão do território urbano, bem pelo contrário, assistiu-se a uma lógica de gerir e de programar a partir de um modelo tecnocrático, vertical e mais ou menos deslocalizado da sua base social e cultural de apoio. Em total detrimento da discussão aberta e democrática do pensar e do fazer cidade.
O planeamento, a programação arquitectónica e o urbanismo transformaram-se numa moda, num assunto de profissionais, atrofiando e afunilando desta maneira a discussão e a reflexão da cidade no contexto do espaço público e cívico. Resultando daqui, um profundo sintoma de exclusão cívica e politica dos cidadãos que não foram chamados a participar de forma responsável nas questões da política e da gestão da sua cidade.A cidade enquanto "coisa pública" transformou-se numa matéria subordinada aos apetites da racionalidade funcional do domínio da técnica e da sua burocracia na produção de um planeamento de cosmética e de adorno urbano, servindo estéticas e ideologias mais preocupadas em servir a dogmática expressão de pequenos grupos que usurpam a cidade e decidem pela cidade, em total detrimento daqueles que vivem a cidade.
Este planeamento de cosmética é essencialmente uma forma de acção que visa olhar a cidade como uma estrutura redutora ao serviço de interesses corporativistas e especulativos. Tratamento de pele urbana, de fachadas nos antigos cascos, sem sentido arquitectónico e sem fundamentação teórica que os justifique. Deixando por resolver os problemas estruturais da cidade e respectiva Área Metropolitana, que começa pelo envelhecimento do casco antigo da cidade do Porto e respectivo esvaziamento do centro da cidade. A cidade em termos demográficos é uma espécie de plano inclinado para os terrenos periféricos ao centro do Porto. Deslocando pessoas, equipamentos e infra-estruturas, competindo com a cidade consolidada , abandonando esta aos apetites vorazes da especulação imobiliária.
 Definiram-se programas de conservação e de reabilitação do casco antigo (transformado mais tarde em centro histórico e património Unesco), com leis e regras muito apertadas e selectivas do ponto de vista da intervenção arquitectónica, colocando entraves às seus locatários na melhoria das suas habitações. Contribuindo, desta forma subtil, para o empobrecimento do parque habitacional da cidade antiga e respectiva deslocalização dos seus moradores para os bairros novos construídos na zona Ocidental e Oriental da cidade do Porto. Deixando o caminho livre à especulação e aos interesses imobiliários de grandes grupos económicos e financeiros.
Assistimos, ao crescimento desmesurado das periferias , sem ordem nem lei, sem plano nem projecto, penetrando nos espaços rurais de Campanhã e Aldoar, ocupando estes territórios de forma fragmentada; acelerando a transformação destes territórios para outras funções que não as da sua matriz inicial. Construíram-se, grandes infra-estruturas de engenharia para facilitar as mobilidades inter-urbanas, desde vias rápidas (VCI), acentuando a dependência do transporte privado sobre o transporte coléctivo. Estamos perante a aparência desoladora  e monstruosa das novas paisagens urbanas, configurando inóspitas cidades dormitórios, deslocadas e degradadas.
A ausência de programa político e social para esta nova cidade, acentua o seu estigma de anti-cidade, de morte de cidade anunciada. Uma espécie de invocação da tragédia do homem perante a morte da civitas. A cidade deixa de ser entendida como uma totalidade, perde dimensão holística, em beneficio  da lógica do fragmento, do apontamento urbano e da pequenez da tipologia arquitectónica. A noção do todo perde-se em beneficio da sua parte, consequentemente o urbanismo transforma-se numa caricatura pobre do fazer cidade em detrimento do pensar a cidade.  
Pensar a Cidade como programa global de sociedade urbana, enquanto tarefa nobre da praxis política. Esta prática não se relaciona com o tecnocracismo medíocre, ou simplesmente não pode ser campo de fácil manipulação de gente especulativa, rentista que usam a cidade como uma simples moeda ganho fácil. A cidade não pode ser um campo de especulação económica e financeira, rentável para meia duzias de especuladores imobiliários que a manipulam e a transformam sem sentido civilizacional.  A Cidade é uma civilização inteira em si mesma. Um paradigma civilizacional que modela e abriga.